Português - CONSULPAM 2025 - Agente Administrativo
TEXTO
Em 27 de junho de 1975, a imprensa brasileira foi pega de surpresa. Em Bonn, então capital da Alemanha Ocidental, representantes do governo local e da ditadura militar brasileira anunciavam a assinatura de um ambicioso acordo entre as duas nações.
Negociado em segredo, o documento oficializava a transferência de tecnologia alemã para o desenvolvimento do programa nuclear brasileiro, prevendo a construção de oito usinas nucleares nos estados do Rio (Angra 2, 3, 4 e 5) e em São Paulo (Iguapé 1, 2, 3 e 4).
Cinquenta anos depois, o tratado ainda subsiste, mas como um elefante branco. Das oito usinas, só uma saiu do papel - Angra 2, no estado do Rio de Janeiro, em operação desde 2001. Outra, Angra 3, também no Rio, segue em construção desde 1986, tendo consumido mais de R$ 20 bilhões. Dadas as circunstâncias, é natural ligar o fracasso do programa nuclear brasileiro ao acordo com a Alemanha. Mas de quem é a culpa?
Essa pergunta ocupou, durante seis anos, os pesquisadores Dawisson Belém Lopes e João Paulo Nicolini, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A conclusão foi publicada recentemente na revista acadêmica Science and Public Policy, de Oxford, no artigo intitulado "De quem é a culpa pelo programa nuclear brasileiro nunca ter amadurecido?", cuja pesquisa contou com 25 entrevistas com especialistas de todo mundo e a análise de documentos históricos.
A princípio, a resposta é simples. "Foi muito mais da gestão brasileira dos militares que de outros parceiros ou organizações internacionais", diz Nicolini, cuja tese de doutorado, orientada por Lopes, deu origem ao artigo. "O maior problema foi a falta de interlocução com a comunidade acadêmica, com o empresariado e com a sociedade. Demos um passo maior que a própria perna e a falta de planejamento dos militares acarretou nisso", explica ele.
O tratado foi assinado durante a gestão do general Ernesto Geisel (1974-1979), mas Nicolini também atribui os problemas aos governos de Emilio Médici (1969-1974), envolvido na negociação, e de João Figueiredo (1979-1985), também responsável pela implementação.
Da perspectiva do contexto da época, o acordo surgia como ideal para os dois lados, o que levou a imprensa alemã a classificá-lo como o "negócio do século", prevendo que o governo em Bonn receberia cerca de 10 bilhões de dólares com as exportações de produtos nucleares aos brasileiros. Por causa da crise do petróleo de 1973, Brasil e Alemanha Ocidental tinham visto seus respectivos "milagres econômicos" das décadas anteriores caírem por terra.
Os europeus enfrentavam o maior desemprego em 20 anos, que passara de 500 mil em 1974 para mais de um milhão em 1975 - afetando principalmente a indústria. O Brasil, por sua vez, com uma inflação perto de 30% impactada pelo custo do petróleo, buscava a diversificação da matriz energética e, claro, um lugar ao sol junto às potências atômicas mundiais.
Além disso, era uma jogada dos dois países também para fugir da tutela dos Estados Unidos. A Alemanha, pioneira nos estudos sobre fissão atômica nos anos 1930 durante o governo nazista, ficara para trás na corrida nuclear por imposições dos aliados após a Segunda Guerra. Já o Brasil adquirira dos americanos sua primeira usina nuclear, a de Angra 1. em 1973, num modelo conhecido como "turning key", sem transferência de tecnologia nem troca de aprendizado.
Logicamente, os americanos não viram com bons olhos o "drible" de brasileiros e alemães ocidentais e tentaram de todas as formas boicotar o acordo. Não era interessante para os americanos que houvesse outra nação com poderio nuclear no território de influência na América Latina, nem a de que os alemães ocidentais estivessem abocanhando parte do mercado da tecnologia nuclear, aponta Belém Lopes.
"Naquele momento, esse movimento representava uma microrruptura. Esse canal direto entre Brasil e Alemanha Ocidental era uma forma de passar um recado para os Estados Unidos e de diminuir nossa dependência em relação a eles", afirma o professor de política internacional da UFMG. [...]
Fonte: CORREA, Fabio. O fracasso do acordo nuclear entre o Brasil e a Alemanha Artigo publicado na página da Deutsche Welle Brasil. Disponivel em: https://www.dw.com/ptbr/o- fracasso-do-acordo-nuclear-entre-o-brasil-e-a-alemanha/a- 72236964 Adaptado. Acesso em: 21 de abril de 2025
Com base no trecho "Esse canal direto entre Brasil e Alemanha Ocidental era uma forma de passar um recado para os Estados Unidos", assinale a alternativa que interpreta CORRETAMENTE o significado da expressão destacada,
Buscar mediação diplomática com os americanos.
Indicar a intenção de desafiar a liderança americana no campo da tecnologia nuclear.
Solicitar apoio militar dos Estados Unidos.
Enviar oficialmente um comunicado à embaixada americana.
Crie uma conta grátis para ver o gabarito comentado
10 questões gratuitas por diaResponder Questão e Ver Comentários →