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REVISTA USP LEVA A SÉRIO GÊNEROS LITERÁRIOS MARGINALIZADOS
Disponível na internet, publicação gratuita traz dossiê com artigos sobre livros classificados como literatura de massa, comercial e de entretenimento, entre outros rótulos
Em sua nova edição, que traz o dossiê Literatura de Entretenimento, a Revista USP propõe justiça àqueles livros condenados por rótulos pouco amistosos: literatura de massa, comercial e de entretenimento. Volumes abrigados em sedutores, mas observados com desconfiança por certa erudição: ficção científica, histórias de detetive, romances góticos, distopias, literatura de horror, contos de fadas. Muitas vezes, fenômenos editoriais que receberam desdém de estudiosos convictos da falta de profundidade, valor artístico ou relevância literária dessas obras. Com 190 páginas, a revista - que chega à edição 140 - está disponível na íntegra, gratuitamente.
A tarefa a que se dedicam os autores dos artigos presentes no dossiê é levar essa produção a sério. Organizado pelo professor Jean Pierre Chauvin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o conjunto reúne textos que se aprofundam na gênese, desenvolvimento e nas características fundamentais de seus principais gêneros. Um panorama que sensibiliza o leitor para a importância dessas narrativas e a densidade que suas páginas guardam.
"Assim como os autores do dossiê, presumo que as narrativas de ficção científica, as distopias, as histórias de detetive, os romances góticos e a literatura de horror não precisam e nem podem ser reduzidos a meros produtos de consumo, voltados exclusivamente para passar o tempo", escreve Chauvin no texto de apresentação dos artigos.
O que há, portanto, para além de passatempo nessas obras? Um diálogo com as principais ideias, anseios e interpretações de cada momento histórico em que foram publicadas, por exemplo. É o que mostra Sandra Reimão, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, ao analisar a literatura policial.
Inaugurado em 1841 por Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe (1809-1849), o gênero dá seus primeiros passos estabelecendo o arquétipo literário do detetive moderno. Auguste Dupin é um detetive amador, que encara os crimes com os quais se envolve como enigmas da razão. E a observação e a reflexão desapaixonada - uma abordagem quase científica, alicerçada no positivismo, portanto- que traz a chave dos mistérios. Sherlock Holmes, de Conan Doyle (1859-1930), e Hercule Poirot, de Agatha Christie (1891-1976), dariam sequência a essa tradição.
Uma literatura de reconforto, que traz princípio, meio e fim bem delineados, como salientou Jorge Luis Borges. Nenhum crime, por mais complexo ou implausível, termina sem resolução, graças ao entusiasmo no poder da razão e do método. Uma abordagem que seria transformada no século 20 com o surgimento do policial noir. O estadunidense Dashiell Hammet (1894-1961) é apontado como seu criador, a partir dos contos publicados na revista Black Mask. Em 1929, ele traria à luz o detetive Sam Spade, imor- talizado nas telas do cinema por Humphrey Bogart em O Falcão Maltês (1941).
As coisas estavam diferentes: Spade não era um amador que resolvia mistérios por hobby. Tratava-se de um detetive profissional, funcionário de um escritório, longe de ser infalível ou moralmente superior, como Dupin, Holmes e Poirot. Os métodos quase científicos de investigação abriam lugar para o uso da força bruta, da ameaça e da chantagem. O envolvimento emocional com as outras personagens - sobretudo a femme fatale - era acompanhado de paixões incontroláveis, ódios bestiais e outros sentimentos que passariam longe do apartamento na Baker Street.
"Ao invés de bem-educado, fino, elegante, sutil, como a maioria dos famosos detetives do romance de enigma, Sam Spade, o protagonista de O Falcão Maltês, é rude, vulgar, áspero ao expressar-se e deselegante", escreve Sandra. "Além disso, Sam Spade não é um diletante, ele trabalha para sobreviver, ele é um empregado assalariado da Agência Continental".
O mundo havia passado pela Primeira Guerra Mundial, a belle époque jazia sobre os escombros das trincheiras e nada mais era como antes. O otimismo na razão cedia espaço para tons de cinza e cinismo, abordagens menos generosas e idealizadas a respeito da alma humana. Se o gênero policial antes era apaziguador, agora tornava-se um instrumento de crítica social.
No Brasil, a figura do detetive seria reelaborada a partir das reflexões a respeito da própria identidade nacional. Desde O Mistério (1920), obra coletiva escrita por Coelho Neto (1854-1934), Afrânio Peixoto (1876-1947), Medeiros e Albuquerque (1867-1934) e Viriato Corrêa (1884-1967) considerada nossa primeira produção policial, o humor foi usado para sublinhar a particularidade dos trópicos.
Para Sandra, é uma certa ideia de brasilidade que molda as personalidades dos detetives nacionais. Exacerbação dos sentimentos e da sexualidade, misticismo, ingenuidade e limitação intelectual surgem em maior ou menor grau nos protagonistas, em geral com acento cômico. "Como que a indicar que quanto mais brasileiro for uma personagem, mais patente se torna a discrepância entre esta e a literatura policial enquanto modelo transposto", indica a professora.
(Adaptado de: PRADO, Luiz. Revista USP leva a sério gêneros literários marginalizados. Jornal da USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/cultura/re- vista-usp-leva-a-serio-generos- literarios-marginalizados/. Acesso em: 06/04/2024.)
Assinale a alternativa que se constitui como uma afirmação do autor do texto em análise.
Há uma ideia de brasilidade que molda as personalidades dos detetives nacionais.
O dossiê publicado pela Revista USP agrupa textos que se aprofundam na gênese, no desenvolvimento e nas características fundamentais de certos gêneros literários
A literatura de entretenimento dialoga com as principais ideias, anseios e interpretações de cada momento histórico em que foram publicadas.
As obras que compõem a chamada literatura de massa não devem ser rotuladas unicamente como produtos para passar o tempo.
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