Conhecimentos Específicos: Letras - CEBRASPE 2021 - Professor de Língua Portuguesa
Quem sou eu?
1 Se negro sou, ou sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
4 Pois que a espécie é muita vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
7 Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
10 Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
13 Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
16 Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
19 Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
22 Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais.
25 Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
28 Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
31 Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar e guerra,
34 -Tudo marra, tudo berra-
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
37 Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
40 Também há muitos bodinhos.
O amante de Siringa
Tinha pelo e má catinga;
43 O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
46 Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
49 Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
52 São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
55 Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
58 Porque tudo é bodarrada.
Luís Gama. Quem sou eu? In: Sílvio Romero. História da literatura brasileira.
Rio de Janeiro: Garnier, 1888. Internet: <www.brasiliana.usp.br> (com adaptações).
Glossário
Siringa: belíssima ninfa da água na mitologia clássica.
Midas: personagem da mitologia grega, rei da Frígia.
Jove: ou Júpiter, ou Zeus, deus dos deuses e dos homens.
Fauno: deus romano protetor dos pastores e rebanhos.
Plutão: ou Hades, deus que possuía as chaves do reino dos mortos.
Com relação a aspectos linguísticos do poema Quem sou eu?, anteriormente apresentado, julgue o próximo item.
O poeta lança mão de processos de derivação sufixal para criar novas palavras a partir do radical do substantivo “bode”.
Certo
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