Português - UPA 2025 - Técnico Legislativo
TEXTO 1
O rei da chantagem é um mendigo da carência
Quem jura que está pronto para se casar é apenas imaturo.
Jamais estamos prontos. Casamento é construção.
Usava a chantagem do fim para ganhar a argumentação.
Raciocinava que, se alguém me amasse, nunca aceitaria o término da relação.
Quebrei a cara ao lançar mão da minha velha estratégia.
Gritei:
Então acabou!
Minha esposa, doce e calma, simplesmente respondeu: Tudo bem. Se é o que você quer, ajudo a arrumar a sua mala.
Eu gelei, tremi, não esperava que concordasse. A partir desse momento, pedi desculpa, coloquei-me no meu lugar de responsabilidade e não ousei falar novamente da boca para fora. As palavras ditas voltam contra você.
Não mais arrisco com os passos em falso, não mais blefo. Ela possui cartas melhores do que as minhas: a tranquilidade, a paciência, a disposição de conversar. Foi nesse confronto, vivido no início do romance, que eu virei adulto no amor.
Tive que aprender com o seu exemplo. Poderia ter absorvido a lição durante a minha infância. Já carregava um fracasso no colo, um antecedente no coração.
Fugi de casa aos seis anos. Escolhi o entardecer para escapar de meus pais. Levei uma mochila. Criança não consegue pensar em bagagem de mais de dois dias. Transportava um saco de bolas de gude, um pião, cinco chocolates Bis e um pijama. Achava que isso bastaria para o resto da existência. Não incluí nenhum produto de higiene. Não avisei do meu rumo, não me despedi, bati a porta com força. Caminhei dez quarteirões e decidi fazer um lanche na praça. Já entendia que a deserção cansava mentalmente e provocava fome.
Comi os doces imaginando que os pais e irmãos choravam com a minha partida, montavam equipes de busca para me localizar, fixavam cartazes com o meu rosto de desaparecido nos postes.
Transcorreram trinta minutos, e eu me encontrava entediado e com medo. Aguentei uma hora brincando de sonhar a tristeza familiar, o estardalhaço na vizinhança com o meu sumiço, o boato crescente de um sequestro, a culpa coletiva por não me oferecerem a devida atenção.
Mas começou a esfriar, a escurecer, latidos e piares estranhos me rodeavam, de cima, dos lados. O breu se aprofundou em mistério selvagem, e não desejei prolongar o castigo. Acreditava que havia gerado sofrimento suficiente. Retornei ao lar disposto a ser celebrado.
Quando entrei na sala, constatei que a mãe cozinhava, o pai escrevia, os irmãos assistiam à televisão. Todos ocupados com alguma coisa, nem ergueram o pescoço para me cumprimentar.
Não existiram abraços ou lágrimas.
Abandonei a família e ninguém reparou. Ninguém soube.
Ninguém teve noção. Até hoje, eles sequer desconfiam que um dia eu fugi de casa.
Fonte: CARPINEJAR, Fabricio. O rei da chantagem é um mendigo da caréncia. O Tempo, [s..]. 11 dez 2025. Disponivel https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2025/12/11/o-rei-da-chantagem-e-um-mendigo-da-carencia. Acesso em: 7 jan. 2026.
Considerando o uso estilístico da linguagem no texto de Fabrício Carpinejar, assinale a alternativa que apresenta, de forma rigorosamente correta, a identificação e análise da figura de linguagem predominante no seguinte excerto:
"Ela possui cartas melhores do que as minhas: a tranquilidade, a paciência, a disposição de conversar."
Trata-se de uma metonímia por instrumento, em que "cartas" substituem simbolicamente os recursos argumentativos da esposa, denotando a habilidade estratégica de dialogar.
Configura-se uma metáfora, que associa comportamento pacífico da esposa ao jogo de baralho, sendo o termo "cartas" um signo de inferioridade emocional do enunciador.
Observa-se uma sinestesia estrutural, já que os elementos "tranquilidade", "paciência" e "disposição" misturam planos sensoriais distintos com o objetivo de sugerir um estado de equilíbrio subjetivo.
Tem-se uma prosopopeia, pois as qualidades humanas são dotadas de ação própria, como se "tranquilidade" e "paciência" fossem sujeitos atuantes no processo de negociação afetiva.
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