Português - UPA 2023 - Guarda Municipal
Leia o texto para responder a questão.
TEXTO 1
Ocasiões de ficar calado
- Como vai indo seu marido, que há tanto tempo não vejo? Meu marido partiu dessa para melhor há dois anos, o senhor não sabia? Cumprida a primeira parte da gafe, saio impávido para a segunda: Que coisa terrível, eu não sabia! Me desculpe, mas andei viajando... E não tendo mais o que dizer, repito para o cavalheiro que a acompanha:
- Terrível, não acha? Mas ele não pensa assim: Não acho não: sou o atual marido dela. A consciência de que a gafe em geral se compõe de duas partes distintas. Ficar sempre na primeira, jamais tentar consertar. Ao contrário da Loteria Federal, não insista, desista! Eis o que eu, empedernido praticante, tenho a aconselhar aos meus companheiros de infortúnio. A gafe é vertiginosa e se faz anteceder de uma espécie de aviso, antecipa-se na sensação de que caminhamos no ar, como num desenho animado: - Como foi bom encontrar você! Eu já estava achando esta festa chatíssima.
Amiga, vamos embora daqui?
- Não posso, sou a dona da casa.
Ou esta outra, mais comum ainda:
- Com aquela mulher ali eu não dormia nem de graça.
- Aquela mulher ali é a minha esposa.
Se o infeliz acrescentar que neste caso dormia sim, não estará apenas caindo de quatro: estará se precipitando no
abismo da mais imperdoável inconveniência, que vem a ser a repetição literal de uma velha anedota. São gafes tradicionais, decorrentes em geral das relações de parentesco ou dos encontros de circunstância, a que os mais insensatos como eu raramente escapam. Não há como resistir ao poder magnético dos assuntos traiçoeiros, que vão espalhando armadilhas a cada passo, e nos levam sempre a falar em corda justamente na casa do enforcado. Se sabemos que a gafe é irreversível, por que tentamos teimosamente remendá-la, afundando-nos cada vez mais? É que ela nem ao menos é sincera. Fôssemos autênticos e verazes na convivência, a gafe se desarmaria ao peso de sua própria legitimidade. E deixaria de ser gafe. Foi essa, pelo menos, a solução encontrada por um amigo meu, vítima também dessa maldita sina, e que ontem me dizia ter-se conformado, passando a praticá-la deliberadamente.
- Você é parente dele? Que horror!
- Morreu? Meus parabéns.
- Não sei como você, tão simpática, pode ter um marido
tão chato.
Fui cair logo ao seu lado neste banquete, mas veja só que azar o meu.
Aliás, pelo que eu soube, a senhora não é tão velha quanto parece.
Não aguentei ler até o fim. Ah, foi o senhor que escreveu?
E ainda tem coragem de confessar?
Com isso, ele passou a ser considerado homem do mais fino espírito - excêntrico, desconcertante, é verdade - mas de esmerada educação. Apesar de tudo, outro dia recebeu o troco que lhe era devido, funcionando desta vez como receptor de uma gafe, ao dizer a uma jovem, que está escrevendo um romance: a história de um mau- caráter. E ela, inocentemente:
- Autobiográfico?
Fernando Sabino.
https://contobrasileiro.com.br/ocasioes-de-ficar- calado-cronica-de-fernando-sabino/. Adaptado
Acerca da crônica de Fernando Sabino julgue as afirmações que seguem:
I. A crônica trata daquelas coisas que dizemos sem a intenção de ofender ninguém, para em seguida nos arrependermos, constrangidos pelo erro ou pela inconveniência da mensagem.
II. Quando cometemos uma gafe, temos a mania de tentar consertá-la. Para Fernando Sabino, a tentativa é vã, sendo
necessário ter "consciência de que a gafe em geral se compõe de duas partes distintas", e que se deve "ficar sempre na primeira, jamais tentar consertar", porque "a gafe é irreversível".
III. Para o autor, a gafe é "vertiginosa", pois "se faz anteceder de uma espécie de aviso, antecipa-se na sensação de que caminhamos no ar, como num desenho animado".
Está correto o que se afirma em:
I, II e III.
II e III, apenas.
I e II, apenas.
l e lll, apenas.
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