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"Uma vez cheguei a chorar, pois não via a luz do dia por duas semanas". Esse é o relato de Silvia (que teve o nome alterado), de 29 anos, especialista em cirurgia geral, que concluiu a residência no primeiro semestre deste ano, em São Paulo.

Ela prefere manter o anonimato por medo de represálias, diante do aumento do número de casos de assédio moral e jornadas exaustivas sofridas pelos médicos residentes em todo o Brasil. "Já cheguei a trabalhar mais de 100 horas por semana. Incontáveis vezes somos humilhados em cirurgias ou até mesmo na frente dos pacientes", diz a jovem. Diante da pressão exagerada, ela pensou em desistir diversas vezes ao longo dos três anos de especialização.

Ela não é a única a se queixar de um ambiente cada vez mais hostil na residência médica. Em 2022, residentes do primeiro ano em ortopedia e traumatologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pediram demissão coletiva. Em carta, eles firmaram que as condições de trabalho e a carga rária semanal, além do número reduzido de sidentes, "tornaram nosso trabalho humanamente npossível.de ser realizado".

Embora não seja obrigatório realizar residência para ser médico, ela é necessária para a formação como especialista. O treinamento ocorre em hospitais, combina prática assistencial e atividades teóricas, sempre sob supervisão, e varia de dois a cinco anos, dependendo da área.

Esse percurso, porém, tem esbarrado em problemas estruturais. Segundo Lucas Faidiga, presidente da Associação Nacional de Médicos Residentes (ANMR), parte das vagas seguem ociosas enquanto a pressão aumenta sobre quem está nos programas. Hoje, apenas cerca de 70% das vagas disponíveis estão preenchidas, segundo ele. Segundo dados da Demografia Médica no Brasil 2025 (DMB), realizado pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e instituições parceiras, em dezembro de 2024, o Brasil tinha 353.287 médicos especialistas, cerca de 59% do total de profissionais registrados. Os outros 244.141, ου 41%, eram médicos formados, mas sem título de especialista.

Formado há dois anos em medicina, Renato (nome alterado) preferiu não fazer residência por conta da pressão e pouca qualidade de vida que a especialização oferece ao residente. Ele afirma que a relação médico-paciente vem se deteriorando e os ambientes de trabalho estão se tornando cada vez mais difíceis.

Devido às queixas de muitos colegas que seguiam na residência, ele optou por não se especializar em uma área e preservar sua saúde mental. Ele acredita que não seja o único que a fazer essa ponderação. Segundo o médico, trata-se de um movimento geracional que vem ganhando força nos últimos anos, levando em consideração a necessidade de mudanças em antigas estruturas já tradicionais e consolidadas, mas que se encontram desatualizadas.

"Ainda existe uma percepção popular de que o médico deve seguir uma jornada de altruismo e abdicação, com um certo fator mistico, mas que, na sociedade de hoje, é uma percepção que não se sustenta", complementa.

Embora haja inúmeros relatos de assédio e jornadas exaustivas em residências médicas, Nicole Dittrich, residente de Radiologia e Diagnóstico por Imagem na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que sua experiência tem sido diferente.

"A minha residência é bem respeitosa. Todos os chefes são muito respeitosos e a relação entre os colegas é muito boa. Nunca ouvi nenhum relato disso na minha residência. Já ouvi relatos de colegas de outras especialidades, mas eu não presenciei essas cenas", conta.

Apesar disso, ela observa que a exposição e o desafio para mulheres continuam sendo maiores em qualquer carreira, inclusive na medicina. "As. mulheres têm mais dificuldade de inserção, de terem suas opiniões com a mesma validação que um homem tem. Então, acaba sendo mais desafiador para as mulheres", afirma Dittrich, que também atua como representante dos residentes de Radiologia.

Ela também critica a remuneração e as condições de trabalho. "O valor da residência médica não é condizente com a carga horária que um médico está trabalhando. É um trabalho médico especializado, e o valor que se recebe é muito abaixo do valor de mercado de um médico generalista recém- formado. Isso prejudica até na própria residência, porque o tempo que deveria ser usado para se capacitar é usado para complementar a renda", afirma.

Silvia confirma que as diferenças de gênero aparecem com mais frequência em áreas com alta pressão, como cirurgia geral e ortopedia. "Na cirurgia geral ainda há bastante preconceito, inclusive de chefes que deixam os residentes homens fazerem cirurgia e as mulheres não, ou diferença de tratamento entre homens e mulheres", diz.

Segundo a médica, essas especialidades mantêm hierarquias rígidas e perpetuam as mesmas ações ao longo de anos. Ela também afirma que situações de assédio moral não são levadas para setores responsáveis. "As denúncias são, sim, subnotificadas e desencorajadas por chefes. Se souberem que você denunciou, provavelmente sofrerá retaliação. Na maior parte das vezes, a denúncia não leva a nenhum desfecho", diz. Em momentos de pressão ou desrespeito, ela conta que boa parte da equipe lida sozinha com o problema.

Nesse contexto, Alcindo Cerci Neto, representante do Conselho Federal de Medicina na Comissão Nacional de Residência Médica, afirma que combater o assédio moral e psicológico deve ser prioridade. Para ele, o residente precisa ser Reconhecido como profissional em formação, e não como mão de obra barata. Isso requer ambientes seguros de aprendizado, relações de respeito e clareza obre as regras que regem a residência médica.

Cerci Neto também aponta limites no modelo brasileiro, centrado em carga horária e não em competências. Segundo ele, mesmo as 60 horas previstas em lei só são compatíveis com a preservação da saúde mental quando há descanso adequado, limites pós-plantão e acesso a apoio psicológico algo ainda distante da realidade de muitos serviços.

Especialistas apontam que, antes de discutir evasão ou desinteresse dos recém-formados, o pais precisa rever a lógica que sustenta a formação especializada e a atuação do médico em diferentes regiões. Para Faidiga, a remuneração atual é um dos principais entraves. Ele lembra que o valor líquido recebido por grande parte dos residentes não passa de R$ 3,6 mil e pode ficar em R$ 3 mil dependendo do local da bolsa.

Para o presidente da ANMR, a má distribuição de especialistas é consequência direta da falta de infraestrutura, salários baixos em cidades pequenas e ausência de apoio estatal. Uma das soluções defendidas é a criação de um plano de carreira nacional, nos moldes do que já existe para outras profissões. (...)

Fonte: Carvalho, Priscila. A crise que está levando médicos a desistir da residência. Artigo publicado na revista eletrônica Deutsche Welle Brasil e disponível na página: . Último acesso: 11 de dezembro de 2025. (Texto adaptado).

De acordo com o texto, assinale a interpretação CORRETA sobre o impacto das condições de residência médica no ingresso e permanência dos profissionais nos programas de especialização.

As condições adversas têm provocado diminuição das denúncias formais, mas não influenciam significativamente a decisão de recém-formados sobre ingressar ou permanecer na residência.

As condições de trabalho e a pressão excessiva levam tanto à evasão (como demissões coletivas) quanto à recusa de recém-formados em iniciar a residência, contribuindo para a ociosidade de vagas.

As condições precárias são responsáveis apenas pela evasão durante a residência, não tendo relação com a escolha inicial dos médicos sobre seguir ou não a especialização.

As vagas ociosas decorrem exclusivamente da má distribuição regional de programas de residência, e não das condições relatadas pelos profissionais.

A alternativa correta é a letra B. Esta questão avalia o conhecimento sobre Português. O gabarito comentado explica cada alternativa com base na legislação vigente e na jurisprudência dos últimos anos.

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