Conhecimentos Específicos: Letras - CONSULPAM 2020 - Professor de Letras
Texto
A psicanálise do açúcar
O açúcar cristal, ou açúcar de usina,
mostra a mais instável das brancuras:
quem do Recife sabe direito o quanto,
e o pouco desse quanto, que ela dura.
Sabe o mínimo do pouco que o cristal
se estabiliza cristal sobre o açúcar,
por cima do fundo antigo, de mascavo,
do mascavo barrento que se incuba;
e sabe que tudo pode romper o mínimo
em que o cristal é capaz de censura:
pois o tal fundo mascavo logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.
Se os banguês que-ainda purgam ainda
o açúcar bruto com barro, de mistura;
a usina já não o purga: da infância,
não de depois de adulto, ela o educa;
em enfermarias, com vácuos e turbinas,
em mãos de metal de gente indústria,
a usina o leva a sublimar em cristal
o pardo do xarope: não o purga, cura.
Mas como a cana se cria ainda hoje,
em mãos de barro de gente agricultura,
o barrento da pré-infância logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.
(MELO NETO, J. C. de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 330).
A propósito do título e de sua relação com o restante do texto, é CORRETO afirmar que:
Impõe uma reflexão acerca da condição subserviente do trabalhador negro em oposição à condição de comando do trabalhador branco.
Autoriza interpretar a relação entre açúcar cristal e açúcar mascavo como metáfora das contradições existentes entre aparência e essência no homem.
Sugere que a aceitação das relações interpessoais é absolutamente necessária para o adequado convívio entre o fazer moderno e o fazer tradicional.
Contradiz o que se enuncia no texto ao reforçar a intima equivalência entre essência e aparência representadas, respectivamente, pelo cristal e pelo mascavo.
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