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Minha mãe sempre costurou a fia com fios de ferro


As palavras acima, de um personagem do conto “A Gente combinamos de não morrer”, formam, especificamente contundente, epígrafe para um comentário sobre Olhos d'água, esta nova coleção de contos de Conceição Evaristo. Trata-se de frase-chave que enfeixa o turbilhão de questões sociais e existenciais recorrentes na escrita da autora, a presidir sua construção ficcional e a reiterar sua unidade temática.

(...) Em seu percurso, o livro, além do mundo de mulheres e de meninos, incorpora homens como protagonistas (Quimbá, Ardoca), cuja perspectiva, objetiva, passa a comandar a narração. Ouso dizer que o fluxo narrativo atinge o seu clímax ainda no citado “A gente combinamos de não morrer” em que, pela primeira vez, diversos narradores encaminham a ação. Fragmenta-se uma univocidade feminina, por mais dispersão e multiplicação do que já era. A par disso, constata-se, num crescendo, um estilhaçar ficcional que o texto assume ao reduplicar a precariedade de seus personagens, para quem “às vezes a morte é leve como a poeira. E a vida se confunde com um pó branco qualquer”. O conto implode a sua própria técnica narrativa. Em um verdadeiro avesso de apoteose, o texto ficcional, paradigmático da sociedade, também se pulveriza: “Alguém cantou a pedra e o segredo foi rompido.” A sujeira vaza dos poros da terra. O mundo explode. Seres de mil mãos agarram tudo. Nada de escapatória. Atenção, leitor. É com você, é conosco, é com todos, que aqui se fala.

Mas a positividade textual prevalece, apesar de tudo. Uma positividade em que escrever é, certamente, “uma maneira de sangrar”; mas também de invocar e evocar vidas costuradas “com fios de ferro” – porém aqui preservadas com a costura persistente dos fios da ficção, em que também se almeja e se combina, incansavelmente, não certa imortalidade, mas a tenaz vitória humana, a cada geração, sobre a morte.


Heloísa Toller Gomeé


No trecho “Uma positividade em que escrever é, certamente, “uma maneira de sangrar”; mas também de invocar e evocar vidas costuradas “com fios de ferro”, para construir o sentido pretendido, a autora usa um jogo sonoro de palavras marcado pelo uso dos

antônimos “sangrar” e “costurar”, que, nesse contexto, têm sentidos opostos.

antônimos “positividade” e “sangrar”, que marcam a oposição de sentido.

sinônimos “evocar” e “invocar”, que significam relembrar e imaginar. 

homônimos “evocar” e “invocar”, que têm grafia, som e sentido parecidos.

parônimos “evocar” e “invocar”, que remetem à súplica e à memória.

A alternativa correta é a letra B. Esta questão avalia o conhecimento sobre Português. O gabarito comentado explica cada alternativa com base na legislação vigente e na jurisprudência dos últimos anos.

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