Português - CONSULPAM 2024 - Enfermeiro
TEXTO
RESTRIÇÃO, ENTORPECIMENTO E LINGUAGEM
(...) Outro solo bastante fértil para reflexões políticas e sociais é o das distopias literárias, analisadas por Jean Pierre Chauvin. À beira de completar 200 anos, o gênero, que tem seus primórdios em O Último Homem (1826), de Mary Shelley (1797-1851), continua instigando imaginações e inspirando o cinema e a televisão. A lista de obras comentadas pelo professor) vai do centenário Nós (1924), de Evgeni Zamiatin (1884- 1937), atravessa o século 20 e entra no terceiro milênio com Admirável Mundo Novo, (1932), de Aldous Huxley (1894-1963), 1984 (1949), de George Orwell (1903- 1950), Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury (1920- 2012), Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess (1917-1993), O Conto da Aia (1985), de Margaret Atwood, e Jogos Vorazes (2008), de Suzanne Collins.
Em comum, as narrativas trazem três elementos-chave: restrição, entorpecimento e linguagem. A trinca fornece o cimento com o qual esses romances são elaborados, correspondendo às estruturas que erguem os mundos imaginados por esses escritores. Em geral, palavras duras, porque esses são universos áridos e pouco amigáveis.
A restrição corresponde aos limites físicos e abstratos que se impõem aos protagonistas das distopias. A vigilância constante em 1984 e em O Conto da Aia, o encarceramento de Alex em Laranja Mecânica, a interdição aos livros de Fahrenheit 451. Condições que fazem Chauvin lembrar "instituições totais" do sociólogo Erving Goffman, nas quais as barreiras sociais e proibições de ir e vir são símbolos para o caráter totalizante de sociedades como a Oceania do livro de Orwell.
Já o entorpecimento oferece aos personagens dos mundos distópicos alívio para suas existências rotinizadas e vigiadas. Servem para amortecer o peso da vida e garantir que tudo se mantenha sob controle. É nesse grupo que estão os passes para relações sexuais de Nós, a droga da felicidade de Admirável Mundo Novo, as pílulas para dormir de Fahrenheit 451 e o banquete ofertado aos participantes dos jogos vorazes.
Com a linguagem, por sua vez, os autores das distopias chamam atenção para o poder simbólico enquanto mecanismo de controle. E, ao mesmo tempo, para a força subversiva que a palavra pode ter nas mãos dos oprimidos. A novilíngua do Grande Irmão e o diário mantido por Winston Smith, em 1984. Ou a queima de livros e os exemplares mantidos em segredo por Guy Montag no romance de Bradbury.
"De um lado, os poderosos recorrem determinados jargões com o propósito de naturalizar as formas de violência material e simbólica", escreve o professor. "De outro lado, os cidadãos, proletários e aias encontram brechas linguísticas que constituem metáforas de sua luta pela liberdade possível". Na reunião desses elementos, o que está em jogo nas distopias são as condições arbitrárias e indignas que limitam e apequenam as personagens, avalia Chauvin.
Adaptado de: PRADO, Luiz. Revista USP leva a sério gêneros literários marginalizados. Jornal da USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/cultura/revista-usp-leva-a-serio-generos- literarios-marginalizados/. Acesso em: 06/04/2024.).
Assinale a alternativa que está de acordo os sentidos negociados no texto.
A língua pode ser um objeto de poder e dominação
A língua é o principal meio de dominação de um povo.
A linguagem falada pelos ricos é ostensiva, porém elegante
A comunicação entre políticos e cidadãos é repleta de desentendimentos.
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