Conhecimentos Específicos: Letras - CONSULPAM 2025 - Professor de Letras
Seria muito bom se pudéssemos abandonar a secular superstição de que escrever é sempre Sinônimo de "escrever difícil". A desigualdade social, que reserva a uma minoria acesso a uma boa educação e, com ela, à aprendizagem adequada da leitura e da escrita, pode estar na origem dessa superstição, como se escrever bem fosse um dom especial, um privilégio "natural" de poucas pessoas, uma espécie de atributo das classes sociais privilegiadas --- quando, de fato, a leitura e a escrita são direitos de toda cidade e de todo cidadão, sendo um dever do Estado criar condições para que toda a população se apodere dessas habilidades tão importantes, fundamentais para a vida moderna.
É perfeitamente possível escrever um texto, mesmo com maior grau de formalidade, usando palavras simples, construções sintáticas habituais etc. Uma escrita elegante e bem-sucedida não precisa obrigatoriamente ser hermética e empolada. É até melhor que não seja.
A insegurança linguística, já vimos, é o em que brota a hipercorreção. E hipercorreção, por sua vez, se caracteriza pelo uso e pelo abuso de "muletas" lexicais e gramaticais que, erroneamente tidas como sofisticadas, na verdade deixam o texto atravancado, mal articulado e, muitas vezes, incoerente.
É importante também desconstruir a crença - igualmente infundada de que "escrever é diferente de falar" e de que, por isso, é preciso "evitar os traços de oralidade" na escrita. As relações entre fala e escrita são muito mais complexas do que essa visão simplória. E se um texto escrito puder "falar" aos nossos ouvidos, mesmo que em silêncio, é porque tem ritmo, tem harmonia, está bem lubrificado, nada arranha.
Escrever bem é escrever o necessário e de forma clara. Evidentemente, isso se aplica à escrita sem finalidades literárias, estéticas afinal, a profusão de palavras pode fazer parte do projeto criativo dos artistas de uma língua como Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, no Brasil; James Joyce, na Inglaterra; Marcel Proust, na França etc. Mas os artistas da língua não se formam na escola, nem pode ser objetivo da escola formar grandes escritores e poetas: como formadora de cidadãs e cidadãos, cabe à escola propiciar às pessoas que a frequentam o acesso à cultura letrada e às tecnologias da leitura e da escrita para finalidades da vida em sociedade, do exercício dos direitos e deveres de cada um e cada uma.
Fonte: Falsas elegâncias - como evitar a hipercorreção na escrita formal [recurso digital]. São Paulo: Parábola, 2020. pp. 29-30.
Releia o período seguinte, extraído do quarto parágrafo: "E se um texto escrito puder 'falar' aos nossos ouvidos, mesmo que em silêncio, é porque tem ritmo, tem harmonia, está bem lubrificado, nada arranha." Quanto à estrutura sintática do período, é CORRETO afirmar que:
Se trata de um período composto, em que se organizam orações coordenadas apenas assindéticas, justapostas sem qualquer conectivo que as relacione.
A locução conjuntiva "mesmo que" introduz uma oração subordinada adverbial concessiva na qual se admite um fato contrário à ação principal (falar), podendo ser substituída por "ainda que", sem que ocorra alteração de sentido.
A conjunção "mesmo que" introduz uma oração subordinada adverbial condicional em que se indica uma condição necessária para que o fato principal (puder) seja realizado, podendo ser substituída por "contanto que", sem que ocorra alteração de sentido.
Se trata de um período simples, que é iniciado por letra maiúscula e concluído por um ponto final.
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