Conhecimentos Específicos: Letras - CEBRASPE 2026 - Professor de Língua Portuguesa
Texto 12A4-I
Alguém me falou de um anúncio institucional que a UNESCO publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia em uma frase escrita de trás para a frente — ideia talvez tirada de Alice através do espelho (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar “do lado de lá” do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto — uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.
No Brasil, 5,2% da população ainda continua analfabeta. Parece pouco, mas são mais de 10 milhões de pessoas, o equivalente à população de São Paulo. Some a isso os 29%, entre 15 e 64 anos, que são analfabetos funcionais (leem, mas não entendem uma notícia de jornal ou uma bula de remédio), e veja como o Brasil continua longe do século 21. Por sorte, alguns desses analfabetos sabem de sua condição e não querem que se estenda a seus filhos.
Três pessoas que prestam serviços ao meu redor, incapazes de ler ou escrever, são inspiradores exemplos. Uma manicure fez de seus três filhos um advogado, uma psicóloga e uma assistente social. Um porteiro, homem humilde e boníssimo, fez da filha engenheira, e chorou de comoção na cerimônia de formatura dela. E um encanador, que não sabe dizer a chave do seu PIX (mostra um papelzinho com o número), também formou a filha em direito. Dois desses jovens se beneficiaram de bolsas integrais da PUC.
Como pessoas que não sabem ler conseguem viver numa grande cidade, com sua desordem de cartazes, placas, luminosos, indicações, itinerários e manchetes? É um mundo de signos ocos, para elas sem significado. Que códigos não terão de criar para saber qual ônibus tomar? Como lidar com dinheiro ou cartão? Como receber uma mensagem por celular?
Sempre achei que o momento em que se aprende a ler representa mais que um segundo parto. Talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo.
Ruy Castro. Signos sem significado. (com adaptações).
Assinale a opção correta com base nas ideias do texto 12A4-I.
A alfabetização de adultos é metaforizada como “mais que um segundo parto” porque consiste em um processo biológico mais doloroso que o nascimento.
A situação de um analfabeto frente a um texto escrito se assemelha à visão da personagem Alice diante de um poema no “„lado de lá‟ do espelho” porque, nas duas situações, o leitor tem dificuldade de decifrar o código de escrita do texto.
O relato do caso do encanador que precisa de um “papelzinho” para informar sua chave PIX ilustra como o analfabetismo impede o acesso ao mundo digital moderno.
A expressão “um mundo de signos ocos” retoma o título do texto, confirmando a ideia do completo isolamento social das pessoas que não compreendem a escrita e não dominam a leitura formal nos tempos atuais.
Os analfabetos funcionais representam menos de 5% da população brasileira, considerados no grupo total de analfabetos no país.
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