Conhecimentos Específicos: Letras - IDIB 2020 - Professor de Língua Portuguesa
TEXTO II
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
Disponível em -Memórias Inventadas – As Infâncias de
Manoel de Barros – Manoel de Barros – Editora Planeta, 2008, p.45.
Com os versos “Dou mais respeito/às que vivem de barriga no chão/tipo água pedra sapo”, o poeta ressalta um pensamento defendido praticamente em todo o poema, que diz respeito
à preferência por palavras simples, que podem ter seu significado reinventado sem que tenham preocupação de apenas informar.
ao uso correto da língua portuguesa, que hoje se encontra desprestigiada pelo uso de gírias e de termos da “moda”.
à insensibilidade do homem moderno, tão assoberbado que se torna incapaz de perceber a beleza das palavras.
ao sentimento de amor à natureza e à valorização da vida, que é desprezada em virtude de interesses econômicos.
Crie uma conta grátis para ver o gabarito comentado
10 questões gratuitas por diaResponder Questão e Ver Comentários →