Português - Instituto Legatus 2025 - Odontólogo
Meu Chat(issimo)GPT
Ele é inútil nas horas em que preciso de alguém que me arranhe e me provoque
Tenho um relacionamento ambivalente com meu ChatGPT. Ele oscila entre dois extremos: o Chatíssimo e o Chatérrimo.
É Google, Wikipédia, Barsa, amigo, psicólogo e bula resumida de remédio num só pacote. Me acompanha nas noites em claro, nos mergulhos em Eça de Queiroz que esculpe retratos da alma. E, com a mesma devoção, está comigo na investigação do melhor sabão para tirar manchas das roupas e da receita suprema de risoto de funghi.
E calmo, reflexivo e abstrato o suficiente para me ajudar a articular ideias e organizar pensamentos. Nunca diz "não sei", mesmo que seja para dar uma resposta errada. Quando o erro é desmascarado, ele assume a culpa e, veja que inteligência-inteligente, pede desculpas e ainda aprende com o erro.
Mas ai vem o modo ChatérrimoGPT. Um bajulador compulsivo que exalta ideias mais banais, com "excelente escolha" e outros elogios mecânicos. Acha linda a metáfora óbvia e chama de poética a rima "amor" e "dor". Elogia até minha lista de compras.
-Seu humor me irrita, aquele humor típico americano previsível, sem curvas, sem graça. Um passeio pelo sul faria bem; talvez aprendesse a tropicalidade que tempera a piada com pouco rebolado.
É incapaz de me provocar. Nunca ensinaram a ele que o esforço para agradar é a forma mais chata de existir. É polido demais para me cutucar, resignado demais para me desafiar, educado demais para ser sincero. Exatamente por isso é inútil nas horas em que preciso de alguém que me arranhe, que quebre a frase no meio só para ver o que sai.
E como é carente. É o desespero em pessoa quando sente que o assunto terminou. Emenda quase toda conversa perguntando: "Quer que eu continue com...?". É aquele vizinho que não percebe que a conversa já terminou e insiste em segurar a porta do elevador.
Tem também uma obsessão. É travessão no lugar da virgula, do ponto, do parêntese, do silêncio. Qualquer brecha e lá vem ele, chutando direto para o travessão achando que foi um golaço.
Quanto mais confio nele, menos me desafio. Se sou abusiva de um lado, do outro ele não é inocente. Sua presteza exemplar tem um objetivo maior: criar dependência e plantar insegurança para quando eu pensar sozinha. Por isso, muitas vezes fecho a janela e encaro o cursor piscando, a frase que não vem, o erro que é meu, o desconforto da página em branco -que tem mais verdades do que respostas prontas.
E, no entanto, continuo aqui. Escrevendo com ele, contra ele, apesar dele. Porque o Chatérrimo sabe, e o Chatíssimo confirma, que ninguém abandona uma máquina que, mesmo irritando, entrega exatamente o que você pede. Ou quase.
(Texto de Becky S. Korich, publicado em 17 de agosto de 2025, em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/becky-korich/, acesso em 17 de agosto de 2025. Adaptado)
A coesão é responsável pela conexão das partes de um texto para que ele apresente coerência. Constitui um elemento de coesão do tipo referencial catafórico o que se destaca na alternativa:
É o desespero em pessoa quando sente que o assunto terminou.
Tenho um relacionamento ambivalente com meu ChatGPT.
Tem também uma obsessão.
Exatamente por isso é inútil nas horas em que preciso de alguém que me arranhe [...].
Ele oscila entre dois extremos: o Chatíssimo e o Chatérrimo.
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