Português - Instituto Legatus 2024 - Professor de Ensino Fundamental - Geografia
Texto I
Minha geração vive a angústia de um tempo que não chega', escreve millenial
A casa de meus avós vai virar uma "high school". Assim, em inglês, talvez na esperança de que a embalagem estrangeira possa envaidecer os novos "students" e suas "families". "Uma high school", repetiu a moça para quem entreguei as chaves daquele portão, na frente do qual tantas vezes meus avós acenaram enquanto meu carro se distanciava.
"High schools", "pet shops", "spas", "coworkingspaces": as casas de nossos avós estão ganhando "letterings". E a nós, os millenials, forçados desde a infância a nos desacostumar com o passado e a cultuar as novidades, permanece totalmente estranho ter com o tempo uma relação que se não viva como degradação ou angústia. Tão cedo tivemos que desenvolver a nossa sociabilidade virtual, tão logo abandonamos o pouco analógico que ainda sobrevivia sem ajuda de aparelhos e, claro, tão evidente é quanto isso nos distingue: talvez sejamos mesmo a última geração a ter conhecido, nem que por um instante, o valor do corpo a corpo, a experiência da comunhão, o último respiro de um mundo pré-virtual.
Com alguma dificuldade, ainda é possível nos lembrarmos dos almoços sem distrações digitais —nos quais éramos incentivados a escutar e a falar—, das brincadeiras que exigiam apenas a fantasia da imaginação, das narrativas que tivemos que criar para completar as lacunas de um mundo que parecia não escancarar tanto a sua autossuficiência.
[...].
Cresce em nós a saudade difusa que assombra cada passo, crescem juntos os signos utilizados para expressá-la quando possível: não é curioso que a hashtag #tbt (throwbackthursday, ou quinta-feira do regresso, empregada para demarcar nostalgia em determinada postagem) seja uma das mais usadas em algumas redes sociais?
Ávidos por lembrar, ainda que acostumados, forçados e criados para esquecer, somos cobaias e signatários de uma nova vida na qual a realidade se desloca também para os "stories" de Instagram, para lembranças que se autodestroem em um dia de vivência. Quando a novidade enfim se torna guia único de conduta, tudo o que envelhece, que enfeia e que, portanto, se humaniza, se transforma em trauma.
Virou cotidiano: na multidão de selfies e relatos pessoais de hora em hora —com suas vogais triplicadas e exclamações a perder de vista—, nós, os anônimos com vocação pública, obrigados a nos destacar dentre mil alteridades felizes, parecemos os únicos solitários a circular em um mundo eufórico. E se falta de um passado nos assombra e multiplica nossos fantasmas, o excesso de presente, com suas promessas e exigências, acaba por nos esgotar.
Duas opções igualmente problemáticas, é com isso que sobramos. De um lado, a memória digital criando uma infindável biblioteca pública e privada de nossas ações. De outro, a morte do passado como elemento fundamental de um tempo que se estrutura na novidade. No meio do processo, nós e nossa completa desorientação do que afinal significa o ato de lembrar.
[...].
Pelo excesso ou pela falta, o resultado é o mesmo: a atrofia do valor do passado e a transformação do tempo em mero dado estatístico, perdido no universo digital, na esperança de que a memória do Google irá nos redimir.
Millenials. Em inglês, é bonito. Em português - se ainda for permitido usá-lo-, é didático. Aqui, nos tomam como Geração Y: jogados quase no fim do alfabeto, no fim do milênio, de um tempo que nunca se materializa, dos desejos que nunca se saciam à espera de algo talvez melhor, nascemos para ser a materialização do quase. E assim, enquanto a vida se highschoolariza, uma geração, já à beira dos 30, desaprende a lembrar, enquanto agarra seus minutos nas telas de um celular. No fim, a escola que surgirá na casa de meus avós talvez nem tenha um playground, e a funcionária para quem entreguei as chaves disse que tomamos a decisão certa.
Texto de Felipe Arrojo Poroger (com adaptações). Disponível em: https://comentarios1.folha.uol.com.br/comentarios/ 6084228?skin=folhaonline. Acesso em 03 de março de 2024
"Virou cotidiano: na multidão de selfies e relatos pessoais de hora em hora — com suas vogais triplicadas e exclamações a perder de vista —, nós, os anônimos com vocação pública, obrigados a nos destacar dentre mil alteridades felizes, parecemos os únicos solitários a circular em um mundo eufórico."
Percebe-se o recurso da linguagem figurada no excerto, que dialoga com o todo textual, portanto, foram usadas as figuras de linguagem
personificação esinestesia.
antítese e metonímia.
paradoxo e hipérbole.
disfemismo e eufemismo.
comparação e assíndeto.
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