Português - CONSULPAM 2024 - Pedagogo
TEXTO
A TENSÃO ENTRE O FANTÁSTICO E O MARAVILHOSO
O tema do sobrenatural perpassa diferentes textos literários, mas sua presença não é suficiente para definir a classificação dos gêneros a ele ligados. Gêneros como o Maravilhoso, o Estranho, o Realismo maravilhoso e o Fantástico apresentam motivos, personagens e acontecimentos que se referem a uma fenomenologia meta-empírica. Cada qual, no entanto, estabelece uma relação distinta com o meta-empirico segundo a estruturação particular do discurso e dos aspectos narrativos que emprega. Em outras palavras. a relação intratextual dos componentes da narrativa com os fenômenos meta-empíricos nela plasmados determinará seu pertencimento aos mencionados gêneros. Tal perspectiva, contudo, não supõe uma autonomia do texto em relação ao seu contexto histórico. Trataremos, sobretudo, das diferenças entre o Maravilhoso e o Fantástico no que concerne à relação do sobrenatural com o natural estabelecida pelos elementos narrativos destes gêneros e observável pelo efeito discursivo causado no leitor hipotético. A contiguidade entre esses dois gêneros é observada por Tzvetan Todorov (1977, p. 55) que insiste, no entanto, na sua separação, já que em cada uma destas narrativas estão presentes concepções e resoluções diferentes dos fenômenos extraordinários que irrompem a ordem natural e familiar do mundo encenado.
O Maravilhoso compreende, segundo Irlemar Chiampi (1980, p. 47), uma ausência do principio de causalidade que outorga aos acontecimentos extraordinários, aos personagens sobrenaturais, aos espaços imaginários e ao tempo fictício, uma legitimidade a priori. Admite-se, por antecedência, a existência de leis e regras que fogem à opinião corrente do que deva ser a "normalidade" à qual a natureza e o mundo se submetem.
Para a critica, o discurso narrativo do Maravilhoso não problematiza a dicotomia entre o real e o imaginário, posto que a verossimilhança não está no centro das preocupações deste discurso. O conto maravilhoso relata acontecimentos impossíveis de se realizar dentro de uma perspectiva empírica da realidade, sem aos menos referir-se ao absurdo que todo este relato possa parecer ao leitor. A narrativa do Maravilhoso instala seu universo irreal sem causar qualquer questionamento, estranhamento ou espanto no leitor porque, ao não estabelecer nenhuma via de conexão universo convencionalmente conhecido como real e sua contradição absoluta, o irreal, reforça os parâmetros que o orientam no seu conhecimento empírico do que seja a realidade. De modo que um traço distintivo do gênero Maravilhoso é o de introduzir uma fenomenologia meta empírica negando completamente sua probabilidade de realizar-se no mundo concreto e material.
Neste sentido, o universo do Maravilhoso fecha-se em si mesmo, é hermético, excludente e paradoxalmente, convencional pois, apesar de erguer- se sobre uma imaginação que subverte convencionalismos do mundo material e familiar. reafirma a hierarquia do real sobre o irreall Confirma a impossibilidade de interpenetração entre essas "duas zonas de sentido", como assim designa Chiampi o mundo real e o imaginário. A arbitrariedade, com que se dispõem as intervenções mágicas, as metamorfoses e outros fenômenos de caráter extranatural na narrativa do Maravilhoso, assente, implicitamente, a falsidade e a inexistência do sobrenatural. Os contos de fadas são considerados "contos de mentira", que narram histórias totalmente improváveis e, só enquanto meio simbólico de comunicação de uma mensagem moralizante, estabelecem um nexo com os códigos do mundo real por meio da psicologia do leitor.
Concordamos com Bruno Bettelheim (1979) quando o autor afirma que os contos de fadas contribuem para a formação da criança, para seu processo de amadurecimento, porque a orientam a distinguir o mundo real do irreal. No entanto, discordamos da idéia do autor de que a narrativa do Maravilhoso coloca o irreal como verdadeiro, embora diferente da realidade. Ao projetarem um mundo imaginário e simbólico plenamente constituído, totalizante, os contos de fadas não só se opõem ao mundo real e empírico, senão que postulam implicitamente que sobrenatural pertence à categoria do imaginário. Com o Maravilhoso, a cisão entre sobrenatural e natural projeta-se sobre a contradição irredutível entre mundo imaginário e real.
A criança aprende com o conto de fada que coisas estranhas e sobrenaturais só podem acontecer exclusivamente num universo fictício e imaginário, nos contos de fadas. No mundo real, o imaginário não é operante. No Fantástico as personagens sob o ponto de vista do narrador estão sempre oscilando entre uma explicação racional e lógica para os acontecimentos extranaturais - inserindo-os, desta forma, na ordem convencional da natureza e a admissão da existência de fenômenos que escapam aos pressupostos científicos, racionais e empíricos que organizam o conhecimento burguês da realidade.
Todorov aponta essa hesitação, experimentada normalmente pelo narrador- personagem, entre a crença na sobrenaturalidade dos fenômenos e a convicção numa explicação que os inscreva num rol de justificativas conformes às leis naturais como o elemento definidor Fantástico. O autor ainda coloca como condição do gênero que esta hesitação latente alcance o leitor e lhe provoque uma identificação incontestável com o narrador- personagem hesitante.
Filipe Furtado (1980, p. 95) discorda da posição de Todorov neste ponto, afirmando que tal hesitação do narratário é consequência antes de uma ambiguidade construída pelo discurso do texto que de uma condição para que tal ambiguidade se verifique. O leitor hipotético, conduzido pelo discurso ambiguo de um narrador em primeira pessoa, que também dos desempenha o papel de testemunha acontecimentos insólitos, tende a participar desta hesitação ao identificar-se com ele. Mas, segundo Furtado, essa identificação e hesitação do leitor, se não cumpridas, não comprometem, não obstante, a ambiguidade entre o natural e o sobrenatural comunicada pelo Fantástico, O jogo do discurso verossimil construído e desconstruído, sucessivamente, neste tipo de texto, é assinalado por Furtado como o grande fator responsável pela eficácia desta ambiguidade que influencia, quase invariavelmente, a percepção hesitante do leitor. Para Furtado, um texto não deixará de ser Fantástico se o leitor não "concordar" com o caráter indefinido do fenômeno que está sendo encenado.
Da mesma maneira, os sentimentos de medo, espanto, dúvida, horror, de "estranheza inquietante", suscitados no leitor, manifestam a vigência de um tratamento discursivo da narrativa "fantástica", dado aos fenômenos meta-empíricos e aos temas do sobrenatural, que visa à valorização impactante destes fenômenos na consciência do leitor. Porém, como estes sentimentos constituem uma característica subjetiva observável em um agente que é exterior ao universo narrativo, propriamente dito, os recentes estudos literários questionam a pertinência de tomar se as reações psicológicas do leitor como elemento de um determinado gênero ou texto literário, ainda que o efeito discursivo pretendido no narratário esteja sempre na perspectiva destes estudos.
(Adaptado de: MARÇAL, Marcia Romero. A tensão entre o fantástico e o maravilhoso. Fronteira Z, São Paulo, v. 3. n. 3, set. 2009, p. 2-3.)
De acordo com a autora do texto, os recentes estudos literários questionam a pertinência de tomar-se as reações psicológicas do leitor como elemento de um determinado gênero ou texto literário pelo seguinte motivo:
Essas reações não condizem com o que se espera de um leitor idealizado do conto Fantástico.
Tais reações são elementos que não fazem parte da narrativa.
As reações podem ser exageradas e dispares, a depender de cada tipo de leitor.
Tais reações dialogam com estruturas internas da obra, mas não dizem nada sobre o impacto delas no leitor.
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