Português - IDIB 2024 - Agente de Combate à Endemias (ACE)
MÃE DA MINHA MÃE
A mãe da minha mãe chegou sem se anunciar. Eu não a conhecia, embora soubesse da sua existência. Ela veio e foi bem recebida por mim. Como poderia ser diferente em se tratando da mãe daquela que me gerou durante nove meses, se maquiou e se perfumou na hora de ir à maternidade ganhar neném? E a neném era eu saindo de sua barriga e entrando no mundo indefesa e necessitada de proteção.
Como não oferecer hospitalidade, não dizer "entre, a casa é sua" para a mãe daquela que me banhou, trocou minhas fraldas, me deu colo, me penteou os as cabelos, olhou para mim como se eu fosse um milagre pelo qual ela havia esperado toda a vida?
Ainda que eu não tivesse convivido antes com a mãe da minha mãe, reconheci de imediato a disposição para o cuidar que passa de uma mãe a outra, em ininterrupta corrente geracional, pulsão de ancestralidade que não pede licença para dar palpites na alimentação, lembrar o horário dos remédios, recomendar sapatos mais confortáveis, conferir se as horas de sono foram suficientes e restauradoras.
A mãe da minha mãe me avisou que deve ouvir mais do que falar, pois ela veio para isso, para acompanhar a minha mãe nas recordações da infância, da juventude, do casamento, de quando eu e minha irmã éramos crianças, de quando adolescemos e viramos adultas.
A mãe da minha mãe me ensinou a importância dessa escuta, de afinar a sensibilidade para entender que a minha mãe, aos 91 anos, faz o balanço da vida e precisa de quem lhe ouça, chore e ria com ela, jogue luz nos momentos bons e, se preciso, trapaceie na contabilidade afetiva para mostrar que houve mais felicidade do que tristeza e que, no final das contas, o saldo de viver é positivo.
A essas alturas, quem abriu a porta para a mãe da sua mãe ou para o pai do seu pai ou para ambos entendeu tudo que está escrito neste texto e nem precisa ler as últimas palavras desta crônica para dizer — com certeza disse — já que a mãe da minha mãe não é a minha avó, sou eu.
Disponível em: https://mais.opovo.com.br/.
texto O Mãe da minha mãe de Marília Lovatel, ,
estrutura-se a partir de
uma análise crítica de um fato cotidiano, por meio de juízos de valor e de percepções individuais.
uma narração de fatos reais, sob a óptica de uma linguagem referencial, como meio de informar ao leitor sobre aspectos do dia a dia.
um elemento factual cotidiano abordado para além da compreensão literal do texto.
uma descrição fidedigna de um fato hodierno, a partir de contornos ora objetivos, ora subjetivos.
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