Conhecimentos Específicos: Letras - CEBRASPE 2013 - Professor de Língua Portuguesa
De novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido. Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança. Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito. A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
Graciliano Ramos. Baleia . In: Vidas secas. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1995, p. 89-91 (com adaptações).
A partir da leitura do texto acima, assinale a opção correta a respeito da posição do romance Vidas Secas no panorama da prosa do segundo momento modernista no Brasil.
A descrição detalhada, pitoresca e idealizada da cena da morte de Baleia está de acordo com os padrões do regionalismo romântico ainda presentes na estética de Vidas Secas.
A ambientação sertaneja, que faz de Vidas Secas um romance nordestino, está ausente nesse trecho, que narra a morte da cachorra Baleia.
Em Vidas Secas, o autor mostra a complexidade humana dos que não sabem analisar os próprios sentimentos, até mesmo na composição da cachorra Baleia.
A preocupação de Baleia em juntar o gado e sua existência consumida em submissão a Fabiano tornam Vidas Secas um típico romance proletário.
Inserida no romance social de 1930, a obra Vidas Secas privilegia a objetividade em detrimento da subjetividade; por essa razão, o narrador apresenta a morte de Baleia de maneira fria e distante.
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