ESA - ESCOLA DE SARGENTOS DAS ARMAS 2024 - PORTUGUÊS
TEXTO III
[...]
Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra.
Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição.
A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas.
Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
[...]
DE ASSIS, M. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/INL, 1976. (Fragmento).
A obra machadiana, representada por seus romances e contos, possui duas fases e o livro “Quincas Borba” se encontra na fase da maturidade de Machado, a qual se estabelece, essencialmente, por possuir um teor problematizador, levantando indagações sobre a existência humana, que acaba por ampliar os limites criativos da própria literatura. Nesse contexto, a partir de discussões de vários críticos literários, é muito limitador estabelecer uma Escola Literária única para o autor em questão, contudo, tendo em vista os fatores históricos e características pontuais como as mencionadas, deve-se depreender que a obra é:
Modernista, pois já se denota pela sobriedade dos romances, uma linha de pensamento humanística e atual, própria desta fase, a qual tem por base sempre uma crítica social.
Realista, porque ainda que, em Quincas Borba, por exemplo, se trabalhe a loucura, há princípios objetivos e científicos, até mesmo filosóficos como marca de grande parte das obras machadianas.
Parnasianista, que se configura pelo cuidado com as palavras e, mesmo sendo um texto em prosa, aproxima-se de uma estrutura poética, com rimas e inversões, uma marca de estilo que privilegia a forma.
Simbolista, marcada por uma prosa muito similar ao movimento literário que ocorria na França, oriundo de uma nova estética, com a retratação das transformações das grandes cidades e pelo rompimento do ultrarromântico, dos limites morais e alienantes.
Pré-modernista, pois, aliado às Vanguardas Europeias, percebe-se uma preocupação com novidades literárias que trouxessem um rompimento estético e temático com o que ocorria na Europa Ocidental.
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