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Português - Instituto Legatus 2019 - Professor de Ciências Agrárias

NÓS, OS BRASILEIROS


1. Uma editora europeia me pede que traduza poemas de autores estrangeiros sobre o Brasil.

2. Como sempre, eles falam da floresta amazônica, uma floresta muito pouco real, aliás. Um bosque poético, com "mulheres de corpos alvíssimos espreitando entre os troncos das árvores e olhos de serpentes hirtas acariciando esses corpos como dedos amorosos". Não faltam flores azuis, rios cristalinos e tigres mágicos.

3. Traduzo os poemas por dever de ofício, mas com uma secreta e nunca realizada vontade de inserir ali um grãozinho de realidade.

4 Nas minhas idas (nem tantas) ao Exterior, onde convivi sobretudo com escritores ou professores e estudantes universitários, portanto, gente razoavelmente culta, fui invariavelmente surpreendida com a profunda ignorância a respeito de quem, como e o que somos.

5. A senhora é brasileira? Comentaram espantados alunos de uma Universidade americana famosa- Mas a senhora é loira!

6. Depois de ler num Congresso de escritores em Amsterdã um trecho de um de meus romances traduzidos em inglês, ouvi de um senhor elegante, dono de um antiquário famoso, que segurou comovido minhas duas mãos:

7. Que maravilha! Nunca imaginei que no Brasil houvesse pessoas cultas!

8. Pior ainda, no Canadá, alguém exclamou incrédulo:

9. Escritora brasileira? Ué, mas no Brasil existem editoras?

10. A culminância foi a observação de uma crítica berlinense, num artigo sobre um romance meu editado por lá, acrescentando, a alguns elogios, a grave restrição: "porém não parece livro brasileiro, pois não fala nem de plantas, nem de índios, nem de bichos."

11. Diante dos três poemas sobre o Brasil, esquisitos para qualquer brasileiro, pensei mais uma vez que esse desconhecimento não se deve apenas à natural (ou inatural) alienação estrangeira quanto ao geograficamente fora de seus interesses, mas também é culpa nossa. Pois o que mais exportamos de nós é o exótico e o folclórico.

12. Em uma feira do livro de Frankfurt, no espaço brasileiro, o que se via eram livros (não muito bem arrumados), muita caipirinha na mesa, e televisões mostrando carnaval, futebol, praias e... matos.

13. E eu, mulher essencialmente urbana, escritora das geografias interiores de meus personagens neuróticos, me senti tão deslocada quanto um macaco em uma loja de cristais.

14. Mesmo que tentasse explicar, ninguém acreditaria que eu era tão brasileira quanto qualquer negra de origem africana vendendo acarajé nas ruas de Salvador. Porque o Brasil é tudo isso.

15. E nem a cor de meu cabelo e olhos, nem meu sobrenome, nem os livros que li na infância, nem o idioma que falei naquele tempo, além do português, me fazem menos nascida e vivida nesta terra de tão surpreendentes misturas: imensa, desaproveitada, instigante e (por que ter medo da palavra?) maravilhosa.


(Lya Luft, Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2009, 49-51).


A ocorrência de repetições, mesmo em um texto da prosa literária, não é aleatória; nessas repetições estão muitas funções discursivas significativas. Quanto a esse aspecto, assinale a alternativa correta.

A repetição da palavra Brasil e de seus derivados (brasileiro/a) constitui um recurso desnecessário, uma vez que essas repetições ocorrem tantas vezes que não levam ao direcionamento do tema do texto. 

Nesse texto não ocorrem repetições literais de palavras, repetem-se apenas seus valores semânticos nas associações que são feitas. Por exemplo, em relação ao Brasil, associa-se florestas, plantas, bichos, flores etc.

Um tipo de repetição presente nesse texto é o paralelismo sintático como no trecho: E nem a cor de meu cabelo e olhos, nem meu sobrenome, nem os livros que li na infância, nem o idioma que falei naquele tempo.

Há uma composição reiterativa no trecho constituída por retomadas pronominais e avaliativas no trecho: Não faltam flores azuis, rios cristalinos e tigres mágicos. Esse trecho marca o posicionamento da autora.

No final do texto, o segmento Porque o Brasil é tudo isso é repetitivo, prestando-se a repetir e reiterar a ideia de que a imagem do Brasil está nas negras de origem africana que vendem acarajé em Salvador. 

A alternativa correta é a letra B. Esta questão avalia o conhecimento sobre Português. O gabarito comentado explica cada alternativa com base na legislação vigente e na jurisprudência dos últimos anos.

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