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Português - CONSULPAM 2024 - Guarda Patrimonial/Vigia/Vigilante

TEXTO

Em animais, a inteligência pressupõe a capacidade de aprender e responder a diferentes estímulos ambientais, bem como a de fazer previsões e escolhas. Memória é a capacidade de se lembrar do que se aprendeu. O instinto, também observado em insetos, é um comportamento inato à espécie. Serve para habilitar o animal a viver no ambiente e está, geralmente, vinculado a questões de alimentação, defesa e reprodução. Em insetos, exemplo de instinto seria o fato de certas espécies de pulgas continuarem a exercer a hematofagia alimentar-se de sangue -, para que o excesso de fluido, eliminado pelo ânus, sirva de alimento às larvas. Mas, além de desenvolverem atividades úteis para si mesmos-e, às vezes, também para os da mesma espécie, os insetos seriam capazes de aprender? Eles se lembrariam do que aprenderam? Poderiam ensinar o que sabem? Essas questões, provavelmente, nos fazem lembrar de características importantes sobre os insetos: eles são seres com cérebros diminutos e vida curta, atributos que, em princípio, inviabilizariam qualquer aprendizado. Uma suposição comum aponta para eles serem dotados só de instinto, herdado de seus antepassados mais bem sucedidos. Mas o fato é que essas aparentes limitações não os impedem de aprender e usar as informações para desenvolverem suas atividades. Pioneiro da neuroanatomia, o médico espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), Nobel de Medicina de 1906, e seu colaborador Domingo Sánchez (1860-1947), concluíram, em extenso trabalho de 1915, que os insetos têm "um sistema nervoso extraordinariamente complexo e diferenciado" e que "comparar sua estrutura com a dos anfíbios e répteis seria como se comparássemos um relógio de parede com um de bolso, maravilha do refinamento, delicadeza e precisão". Em insetos, as pesquisas foram inicialmente restritas a abelhas-europeias (Apis mellifera) e moscas-das-frutas (Drosophila melanogaster). Depois, passaram a grilos, baratas, formigas e outros grupos, mostrando a riqueza dos mecanismos de aprendizado e memória, bem como as diferentes redes neurais envolvidas. Em Drosophila, estudo da genética de larvas indicou a existência de cerca de 131 mil neurônios (células nervosas), em vários aglomerados (clusters), já desenvolvidos nas larvas e que seguem se em adultos. Essas células desenvolvendo desempenham funções similares às dos 70 milhões delas nos camundongos ou dos 86 bilhões nos humanos. Nessas moscas, circuitos cerebrais necessários para o aprendizado e a memória têm sido muito estudados. Eles estão mais concentrados em corpos cerebrais cuja forma lembra a de um cogumelo. Têm três camadas e estão voltados para o processamento da informação. Outros artrópodes, como crustáceos, apresentam estrutura semelhante, mas seu funcionamento segue desconhecido. Há especial interesse no estudo do aprendizado e da memória em insetos que são vetores de doenças em humanos. A razão principal é que, ao se conhecer melhor o comportamento desses animais, poderíamos, por exemplo, desviá-los não só para hospedeiros que não sejam bons reservatórios para os parasitos transmitidos por eles, mas também para locais menos perigosos para nós. Mas por que estudar insetos aparentemente sem importância para humanos? Resposta: os dados obtidos a partir desses modelos poderiam ser úteis para compreender o sistema nervoso de outros animais e, como bônus, a evolução da cognição. Em seu livro 1984, o autor britânico George Orwell (1903-1950) escreve: "quem controla o passado controla o futuro". A passagem pode ensinar lição útil ao estudo dos insetos: poderíamos ensiná- los a ter preferência por certos alimentos ou a fazer a postura dos ovos em locais mais interessantes (ou menos perigosos) para nós. Mosquitos Culex da Tailândia voltavam a picar animais da mesma espécie (porcos ou bois) que já haviam picado, mas não transmitiam essa preferência para seus descendentes. Isso é indicativo de que esse comportamento é fruto de aprendizado e memória - e não de processo baseado na seleção natural. Nesse caso, seria útil reforçar a preferência por bois, que não são bons o vírus que transmite, para hospedeiros para humanos, a encefalite japonesa (doença inflamatória do sistema nervoso central). Fêmeas imaturas do mosquito tropical urbano criadas em água com substância atraente ou repelente passaram, quando adultas, a fazer a postura em água com a mesma substância em que se desenvolveram. Fêmeas dessa espécie, bem como as do mosquito Aedes aegypti, quando submetidas a doses subletais de cinco inseticidas, aprenderam a evitar o contato com esses compostos. Há muito, sabe-se que os mosquitos evitam o contato com superficies em que há inseticidas, comportamento que, provavelmente, envolve aprendizado. Quando treinados em laboratório para atacar determinada espécie, predadores e parasitoides de pragas têm menor preferência por outros alvos. Mais uma vez, isso pode ser entendido como resultado de aprendizado. [...] É possível melhorar o aprendizado e a memória em insetos? Experimentos demonstram que sim. Estudos controlados feitos em laboratório, com base na seleção de Drosophila, levaram, após dezenas de gerações, a indivíduos dotados de melhor capacidade nesses atributos. Outras pesquisas, no entanto, mostraram que mutantes dessas moscas têm sérios problemas nesses dois aspectos. A conclusão foi que os genes responsáveis por essas deficiências são deletérios para a espécie e, provavelmente, levam a problemas nas populações naturais desses insetos. A capacidade de aprendizado também está relacionada com a expressão gênica. A comparação entre abelhas com facilidade de aprendizado e aquelas com dificuldade indicou que essa diferença está marcada pela atividade de 74 genes. Desse total, 57 deles têm 'alta' atividade no primeiro grupo, enquanto 17, 'baixa' atividade no segundo. Insetos não reagem ‘automaticamente' aos estímulos. Eles os sentem e reagem a eles com base em ações complexas. Isso nos leva a suspeitar de que pode haver um grau de senciência (capacidade de sentir sensações) nesses animais. Se essas suspeitas forem comprovadas, isso poderia levar considerações bioéticas em relação aos insetos, com base, por exemplo, nas ideias defendidas pelo filósofo britânico Jeremy Bentham (1748-1832), resumidas no seguinte trecho escrito em 1789: "A questão não é 'Eles podem raciocinar?', nem 'Eles podem falar?', mas 'Eles podem sofrer?'. [...]

MARCONDES, Carlos Brisola; LINARDI, Pedro Marcos. Aprendizado, memória e cultura em insetos. Artigo publicado na página da Revista Ciência Hoje. Disponível em: <https://cienciahoje.org.br/artigo/aprendizado-memoria-e-cultura-em-insetos/>. Último acesso em 25 de maio de 2024. (Texto adaptado)

Assinale a alternativa que apresenta o termo que substitui, sem prejuízo semântico, a palavra destacada no seguinte

trecho: "O instinto, também observado em insetos, é um comportamento nato à espécie".

Ineficaz.

Social.

Inerente.

Artificial.

A alternativa correta é a letra B. Esta questão avalia o conhecimento sobre Português. O gabarito comentado explica cada alternativa com base na legislação vigente e na jurisprudência dos últimos anos.

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