Português - CONSULPAM 2024 - Professor de Geografia
TEXTO
Todos nós humanos vivemos no mesmo mundo e temos experiências semelhantes. Por isso, todas as línguas faladas no planeta possuem as mesmas categorias básicas para expressar ideias e objetos refletindo essa experiência humana comum. Essa noção foi defendida por anos por diversos linguistas, mas para o linguista americano Caleb Everett, quando analisamos os idiomas mais de perto, descobrimos que muitos conceitos básicos não são universais e que falantes de línguas diferentes veem e pensam o mundo de forma diferente. Em um novo livro, baseado em muitas línguas que ele pesquisou na Amazônia brasileira, Everett mostra que muitas culturas não pensam da mesma forma o tempo. o espaço ou os números. Algumas línguas têm muitas palavras para descrever um conceito como tempo. Outras, como a Tupi Kawahib, sequer tem uma definição de tempo.
Talvez poucas pessoas estejam mais aptas a pensar sobre esse problema do que Everett. Nascido nos Estados Unidos, ele teve uma infância incomum nos anos 1980, dividindo seu tempo entre seu país natal, escolas públicas em São Paulo e Porto Velho, e aldeias indígenas no interior da Amazônia, em Rondônia. Caleb é filho do americano Daniel Everett. que veio ao Brasil nos anos 1970 como missionário cristão com o propósito de traduzir a Bíblia para o idioma pirahã uma língua falada hoje por cerca de 300 indígenas brasileiros.
Cada vez mais interessado em pesquisar sobre os indígenas que conheceu na sua infância, Caleb resolveu dar uma guinada na sua vida. Abandonou o mundo financeiro, fez doutorado e voltou para Rondônia, onde foi investigar as línguas amazônicas. Everett diz que nos acostumamos a acreditar que todas as línguas do mundo usam categorias universais e objetos - já que a para classificar ideias experiência humana é limitada a alguns aspectos comuns de todas as culturas. Afinal, todos nós - independente de onde nascemos – contamos quantidades, lembramos do passado, planejamos o futuro e usamos pontos geográficos para nos localizarmos.
Mas, segundo Everett, nem todas as línguas refletem o mundo dessa forma. Há línguas no mundo - como a pirahã, que ele aprendeu na infância que sequer têm números precisos. Algumas línguas possuem apenas dois tempos verbais (o futuro e o não-futuro); outras possuem sete. Essas discrepâncias são muito maiores do que apenas diferenças culturais, argumenta Caleb. Elas determinam de forma profunda como cada ser humano percebe e pensa o mundo. A diferença é que para um povo, algumas noções de tempo podem ser não só irrelevantes - como quase incompreensíveis. Já outros povos podem ter uma compreensão mais sofisticada de tempo do que outros
Para entender isso, linguistas como Caleb estão se debruçando sobre muitas línguas que não eram devidamente estudadas no passado - sobretudo na Amazônia. Esse debate traz à tona uma famosa disputa que existe no mundo acadêmico entre seu pai, Daniel, e o linguista americano Noam Chomsky, em torno da língua pirahã, de Rondônia, justamente a que Caleb aprendeu ainda quando criança.
Chomsky é famoso por propor o conceito de "gramática universal" - a ideia de que todas as línguas humanas possuem uma estrutura comum, independente de onde essas línguas se desenvolvem. Mas Daniel Everett afirma que a língua pirahã desmente a tese de Chomsky. Em pirahã, não existiria a recursividade-algo que Chomsky diz ser inerente a todas as línguas e. universal. portanto, Recursividade é quando se insere uma frase dentro de outra, como em: "O policial que prendeu o bandido que roubou uma casa está na delegacia". Esse é um dos debates mais acalorados no mundo da linguística. Chomsky chegou a chamar Daniel Everett de charlatão e sugeriu que sua pesquisa sobre os pirahã era falsificada - já que por anos Daniel foi o único acadêmico a falar a língua.
(Extraído e adaptado de: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg113m2m0r70)
Assinale a alternativa que apresenta o principal propósito comunicativo do autor do texto.
Defender a superioridade da língua portuguesa em relação às línguas indígenas, especialmente a pirahã. por sua capacidade de expressar conceitos abstratos como tempo e número.
Divulgar o livro de Caleb Everett sobre línguas destacando amazônicas. a riqueza e a complexidade da diversidade linguística brasileira.
Apresentar a pesquisa de Caleb Everett sobre a diversidade linguística na Amazônia, destacando a importância de estudar línguas indígenas para compreender a relação entre linguagem e pensamento
Criticar a teoria da gramática universal de Noam Chomsky, utilizando a língua pirahã como exemplo de que a recursividade não é um traço universal das línguas humanas.
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