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Português - Instituto Legatus 2023 - Nutricionista

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Defender nossa liberdade sempre significa defender a liberdade do vizinho

No fim dos anos 1960, quando imaginávamos que nossa revolta transformaria o mundo para melhor, meu pai dizia: "Cuidado, os extremos se tocam", como se nós, "progressistas", e os fascistas e congêneres, que combatíamos, tivéssemos algo em comum.

Aquela observação irônica e irritante era a expressão de uma ideia que logo se imporia mundo afora.

Fascismo e comunismo podiam servir aos interesses de classes sociais opostas, mas tinham algo em comum, algo que talvez fosse mais importante que suas diferenças: ambos aspiravam a ser totalitários, ou seja, a controlar completamente a vida dos cidadãos em nome de uma comunidade que era considerada mais importante do que os indivíduos.

Na origem dessa ideia: 1) a obviedade de que os regimes comunistas reais foram e eram pesadelos opressivos e assassinos; 2) décadas de pesquisa psicológica sobre a obediência burocrática que, no sistema "certo", levara pessoas comuns a se transformar em torturadores, assassinos e cúmplices de genocídios.

(...)

Depois de um século e meio em que a análise política perguntava em que pé estava a luta de classes, as questões urgentes das últimas décadas voltam a se parecer com as questões da aurora da modernidade: qual é a extensão da liberdade que ousamos nos permitir? E qual parte de nossa liberdade aceitamos sacrificar às necessidades da vida em sociedade?

As sensibilidades de direita ou de esquerda podem dar respostas diferentes, sobre desigualdades, redistribuição de riquezas, impostos etc.

Mas, sensibilidades diferentes à parte, somos libertários: o inimigo comum é o Leviată, o monstro que nós mesmos criamos, supondo que precisemos de um governo central e autoritário para nos proteger da desordem de nossa "selvageria".

Para os filósofos, o Leviatā nos protegeria contra a selvageria social, que seria "natural"; para os psicanalistas, o Leviată é alimentado pela tentativa de cada um se defender dos seus próprios desejos. Ou seja, há quem diga que, sem Estado forte, os homens se matariam reciprocamente, porque isso é o que os homens fazem "naturalmente".

Seja como for, a questão do dia é como eliminar o custo "inútil" do coletivo - "inútil", digo, no sentido de que não é necessário pagá-lo para que a vida em comum seja possível.

A tarefa não é simples. A vontade de regulamentar, proibir, reprimir vem do âmago de cada um e tem raízes no cristianismo desde Paulo de Tarso. Ainda recentemente, li um texto simplório em defesa da abstinência sexual dos adolescentes como política de Estado: o pressuposto insidioso era a ideia de que a moral seria a arte de proibir.

Falso: a moral é a arte de permitir o máximo possível.

E se eu não concordar com os atos que meu vizinho se permite? Não tem problema: você nunca será obrigado a agir como seu vizinho. Para conter sua indignação, pense que é sempre o registro da inveja que nos faz definir a liberdade dos outros como libertinagem.

(...)

Cada um se permite o que consegue se permitir.

Contardo Calligaris (Adaptado) Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/202 0/01/ Acesso em 29 de janeiro de 2024.

No trecho ""Cuidado, os extremos se tocam', como se nós, 'progressistas', e os fascistas e congêneres, que combatíamos, tivéssemos algo em comum.", o substantivo destacado só não pode ser substituído, sem que se perda o sentido empregado no texto, por

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