Português - Instituto Legatus 2023 - Professor Fundamental I / Polivalente
Quando Alexander Luria chegou ao Uzbequistão nos anos 1930, encontrou uma região praticamente feudal. O psicólogo russo queria estudar as funções cognitivas de adultos em sociedades sem tecnologia ou alfabetização. E a maioria dos uzbeques vivia da produção de algodão a serviço de proprietários rurais endinheirados. O país como tal fora criado em 1924, ano em que virou uma república anexada à União Soviética. Era um período de fortes mudanças socioeconômicas e culturais, como o início da reforma agrária, a emancipação feminina e a construção de escolas em áreas rurais.
Numa das vilas, o pesquisador usou problemas de lógica para testar a cognição dos agricultores. “No Polo Norte, onde tem neve, todos os ursos são brancos. Nova Zembla fica no Polo Norte e sempre tem neve lá. De que cor são os ursos em Nova Zembla?” Um camponês de 37 anos respondeu: “Há diferentes tipos de urso”. O cientista repetiu a pergunta quatro vezes, à qual o aldeão retrucou: “Se um homem de 60 ou 80 anos tivesse visto um urso branco e me contasse, eu acreditaria. Mas nunca vi um e, por isso, não posso falar”. Na sequência, um jovem uzbeque se voluntariou para resolver o enigma: “Com base no que você diz, os ursos lá são brancos”. A conclusão de Luria foi que o adulto não conseguia solucionar o problema porque raciocinava sobre suas experiências. Seu pensamento era empírico, não teórico. Já o acerto do garoto sequer foi mencionado nas considerações finais.
Cinquenta anos depois, o cientista político James Flynn usou os estudos do russo para sustentar uma ideia provocadora: a de que a humanidade fica mais inteligente a cada nova geração, fenômeno que ficou conhecido como Efeito Flynn. O americano percebeu que as empresas que vendiam testes de QI precisavam recalibrá-los de tempos em tempos. Motivo? O QI médio da população aumentava cinco pontos a cada 15 anos. Só que, por definição, esse valor deve ser sempre 100 – o escore médio de cada faixa etária, que serve de parâmetro para o cálculo das notas tiradas por cada pessoa que faz o teste. De acordo com a pesquisa de Flynn, se testássemos humanos que viveram cem anos atrás utilizando os testes de QI atuais, eles teriam um QI médio de 70. E, se nós fizéssemos as provas do início do século 20, nosso escore seria de 130. “Isso significa que eles eram mentalmente retardados e nós, superdotados?”, brincou Flynn, numa palestra de 2013. “Eu sugiro uma terceira alternativa.” Em seu livro Are We Getting Smarter? (“Estamos Ficando Mais Inteligentes?”, sem tradução para o português), o cientista explica que o efeito tem a ver com a evolução do mundo, que exige mais habilidades mentais e, ao mesmo tempo, dá as condições para que elas surjam.
Algumas evidências corroboram as ideias de Flynn. Nas últimas seis décadas, houve um aumento de 20 pontos no QI médio global, como mostra um estudo de 2014 da Universidade King 's College, de Londres. Os pesquisadores avaliaram mais de 200 mil testes de QI, feitos em 48 países desde 1950. Entre as possíveis causas para o efeito, estão as melhorias na assistência médica, na alimentação, na educação e no acesso à informação. Com condições melhores de vida, os humanos podem desenvolver a inteligência na sua plenitude, ou quase isso. Uma criança subnutrida e doente, por exemplo, terá menos calorias disponíveis para abastecer o cérebro, um órgão que exige até 25% de toda a energia consumida pelo corpo.
(Disponível em https://super.abril.com.br/ciencia/estamoschegando-ao-limite-da-inteligencia-humana acesso em 12/06/2023)
De acordo com as ideias apresentadas no texto, a melhora na cognição está associada
às inúmeras pesquisas científicas nessa área.
à quantidade de pessoas superdotadas no mundo.
às melhores condições de vida e bem-estar social.
à mudança de gerações de seres humanos.
às atividades rurais exercidas pelos seres humanos.
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