Português - CONSULPAM 2024 - Professor de Geografia
TEXTO
DA MAGIA FEÉRICA PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL
(...)
Literatura de entretenimento, seja ou não a melhor maneira de rotular essas narrativas, não é um produto do mundo contemporâneo. Contar histórias que hipnotizam a atenção, congelam os ossos ou dão sentido para o mundo é um hábito ancestral, entrelaçado às origens da própria linguagem. É nesses primórdios que a professora Sandra Trabucco Valenzuela, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, situa o surgimento dos contos de fadas.
Nesse gênero, cuja origem está ligada à cultura celta, o primeiro passo é a constituição de um pacto entre narrador e leitor. Os elementos mágicos da história precisam ser aceitos sem questionamento, desde que respeitem a lógica interna da narrativa, situada em um espaço-tempo imemorial de faz-de- conta. É o reino dos poderes sobrenaturais, metamorfoses, predestinação e embate entre as forças do bem e do mal.
Conforme registra Sandra, os contos de fadas possuem natureza espiritual, ética e existencial, ligada inicialmente à magia feérica. Suas heroínas e seus heróis têm histórias atravessadas pela intermediação do sobrenatural e seus objetivos costumam ser intangíveis: o amor, a felicidade e a alegria "para sempre". Seus cenários; lembrando Walter Benjamin, são constituídos de uma atmosfera que "não é isenta de um toque irônico e satânico".
A primeira aparição do título "conto de fadas" se deu no século 17, numa obra da escritora francesa MarieCatherine Le Jumel de Barneville (1652- 1705), a Madame d'Aulnoy. Trata-se de Les Contes de Fées, publicada entre 1697 e 1698, reunindo 24 narrativas em oito volumes. Foi Charles Perrault (1628-1703), entretanto, autor de História do Tempo Passado com Moralidades, conhecido também como Contos da Mamãe Gansa (1697), que entrou para a história como o responsável por estabelecer as bases do gênero.
Perrault reuniu e adaptou contos da tradição oral, fixando literariamente essas narrativas. Dentre as histórias de Contos da Mamãe Gansa estão A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela. O Pequeno Polegar, Barba Azul e O Gato de Botas. O volume consagraria seu autor como o pai da literatura infantil. Representava uma novidade não apenas temática, mas também de público.
O Iluminismo, as demandas da sociedade industrial e a ascensão da burguesia concorreram para um olhar novo sobre a infância no mundo europeu. A constituição da família burguesa e uma sensibilidade florescente em relação aos filhos fez surgir a literatura infantil, na qual o conto de fadas acaba por se integrar. O maravilhoso das narrativas orais se encontra então com a perspectiva pedagogizante, alimentada por valores da nova classe em ascensão.
É nesse período, destaca Sandra, que os contos de fadas começam a receber tratamento artístico, afastando-se da tradição oral e do mito e se adequando aos valores morais e culturais de sua época. Século 19 adentro, o gênero ganha força sobretudo com os trabalhos dos irmãos Jacob (1785- 1863) e Wilheim (1786-1859) Grimm e de Hans Christian Andersen (1805-1875). No caminho, vários aspectos dos contos tradicionais são adaptados ou eliminados para atender às regras sociais desse novo mundo burguês e industrial.
"A linguagem simbólica dos contos de fadas ressignifica, muitas vezes, valores humanos e de uma dada sociedade, revelando sua ética, temores, ansiedades, comportamentos compartilhados e tendências", escreve a professora. "Embora sejam considerados uma forma de literatura infantil, os contos de fadas trazem a experiência da ancestralidade e, como afirma Clarissa Pinkola Estés, sobreviveram à agressão e à opressão políticas, à ascensão e à queda de civilizações, aos massacres de gerações e a vastas migrações por terra e mar".
(Adaptado de: PEDRO, Luiz. Revista USP leva a sério gêneros literários marginalizados. Jornal USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/cultura/revista-usp-leva-a-serio-generosliterarios-marginalizados/. Acesso em: 6/04/2024.)
Conforme o texto, com o Iluminismo, os contos de fadas:
Passaram a ser usados em escolas de ensino fundamental e médio.
Passaram a ser usados como elementos na educação e formação cidadã de crianças.
Deixaram de ser usados como contos fictícios para, então, exprimir a realidade da burguesia em ascensão.
Deixaram de ser lidos por adultos e passaram a ser lidos somente por crianças.
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