Conhecimentos Específicos: Letras - UPA 2025 - Professor de Língua Portuguesa
TEXTO
Eu sou um viciado. Não em drogas, bebidas ou jogos de azar. O meu lance são e-mails. Pro meu dia começar bem, preciso acordar com ao menos três na minha caixa de entrada. Apesar dos pequenos também servirem, prefiro os grandes, em que as pessoas se prolongam por mais tempo do que deveriam e ainda deixam arquivos em anexo. A verdade é que o que diferencia um e-mail bom de um ruim não é o tamanho, mas sim o assunto. Alguns dos meus preferidos, por exemplo, não possuem mais do que mil caracteres. Sei que tem gente que não gosta de receber emails, mas confesso que não entendo muito bem isso. Sim, eles ocupam espaço e podem trazer notícias ruins, mas e daí?
Filhos também!
No meu último emprego, fiz a maior estagiarisse que uma pessoa poderia cometer. Quando minha chefe entrou de férias, fiquei responsável por entrar em contato com uma área parceira e publicar nossos textos depois que eles fossem aprovados por ela. A regra era clara: só poderíamos soltar nossos conteúdos depois que nos respondessem. E, após uma semana sem nem sinal de fumaça, não tive escolha senão fazer um escarcéu com a minha colega de trabalho. - Não é possível que alguém leve tanto tempo pra responder um e-mail. Eu sou pedreiro, fi. Se me botar pra fazer um arroz e fritar um peixe, eu faço — disse para ela, fazendo referência à Nicole Bahls. Depois disso, levei esse assunto para o máximo de pessoas que pude e, no fim, descobri que estava mandando e-mail para o endereço errado. Faltava um ".br" no final. Essa foi uma das inúmeras vezes que o Gmail me traiu. Recentemente, nossa tóxica relação chegou ao limite. Recebi uma notificação dizendo que meu armazenamento estava cheio e que pararia de receber novos e-mails dentro de alguns dias - eu? Parar de receber e-mails? - pensei - não mesmo. Fui no Twitter, marquei o @ do responsável por essa atualização e disse que me mataria na frente dele, traumatizando todos os seus filhos. Às vezes, exagero um pouco, eu sei.
Texto Adaptado Fonte: OLIVEIRA, Leonardo Henrique do Carmo de. Cronicamente online. In: UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Prêmio Aberst de Crônicas: coletânea 2023. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2023. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/ca talog/view/1512/1378/5380 Acesso em: 10 nov. 2025.
A análise do texto "Cronicamente online", do ponto de vista da estilística, permite reconhecer diversos recursos expressivos que contribuem para a construção de um narrador irônico e hiperbólico Considerando os conhecimentos sobre figuras de linguagem, assinale a alternativa que apresenta a classificação correta de um recurso figurativo presente no texto.
A expressão "o Gmail me traiu" constitui exemplo de prosopopeia, uma vez que há uma crítica subjetiva à funcionalidade da plataforma, caracterizando uma representação exagerada de um comportamento humano.
A construção "sou pedreiro, fi", no diálogo inserido, exemplifica uma anáfora, pois há repetição proposital de uma estrutura frasal em sequência, evidenciando a oralidade estilizada do texto.
A comparação entre filhos e e-mails, expressa em "Sim, eles ocupam espaço e podem trazer notícias ruins, mas e daí? Filhos também!", é uma antítese, pois confronta ideias opostas com o intuito de amenizar o argumento central.
A frase "Fui no Twitter, marquei o @ do responsável... e disse que me mataria na frente dele" é um caso típico de metáfora, pois há associação implícita entre o Twitter e uma arena pública de julgamento.
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