Conhecimentos Específicos: Letras - CONSULPAM 2020 - Professor de Letras
Texto
Sermão de Quarta-Feira de Cinzas
(Para ser pregado na Capela Real)
Pulvis es, et in pulverem reverteris."
Esta é a sentença da morte fulminada contra Adão, e todos seus descendentes, a qual se tem executado em todos quantos até agora viveram, e se há- de executar em nós sem apelação de inocência, sem respeito de estado, sem excepção de pessoa. A Igreja solenemente hoje não só no-la repete aos ouvidos com a voz, mas no-la escreve na testa com a cinza; como se dissera a seus filhos uma piedosa mãe: Filhos, ouvi, e lede a sentença de vosso pai, e sabei que sois pó, e vos haveis de converter em pó: Pulvis es, et in pulverem reverteris (Gên. 3, 19). Outras vezes, e por vários modos, neste mesmo dia, e sobre estas mesmas palavras, tenho comparado e combinado entre si o pó que somos, com o pó que havemos de ser: e, posto que me não arrependo do que então disse, o que hoje determino dizer não é menos qualificada verdade, nem menos importante desengano. O pó que somos, é o de que se compõem os vivos; o pó que havemos de ser, é o em que se resolvem os mortos. E sendo estes dous extremos tão opostos, como o ser e não ser; não é muito que os efeitos e afectos que produzem em nós, sejam também muito diversos: por isso amamos a vida, e tememos a morte. Mas porque eu depois de larga consideração, tenho conhecido que estes dous efeitos no nosso entendimento, e estes dous afetos na nossa vontade andam trocados; o meu intento é pô-los hoje em seu lugar. O amor está fora do seu lugar, porque está na vida; o temor também está fora do seu lugar, porque está na morte: o que farei, pois, será destrocar estes lugares, com tal evidência, que fiquemos entendendo todos, que a morte, que tanto tememos, deve ser amada, e a vida, que tanto amamos, deve ser a temida. E por quê? Em um e outro pó temos a razão. Porque o maior bem do pó que somos, é o pó que havemos de ser: e o maior mal do pó que havemos de ser, é o pó que somos. Mais claro. O pó que somos, é a vida; o pó que havemos de ser, é a morte; e o maior bem da vida é a morte, o maior mal da morte é a vida. Isto é o que hei de provar. Deus nos assista com sua graça para o persuadir. "És pó e ao pó retornarás" (em Latim original).
(VIEIRA, A. Sermões. Tomo. II. Lello e Irmão Editores: Porto, 1959, p. 225.)
A propósito das relações estabelecidas pelos pronomes no texto, é CORRETO afirmar somente que:
O pronome demonstrativo esta que inicia o texto refere-se a um objeto textual ainda a ser apresentado.
Em "isto é o que hei de provar", o pronome destacado retoma o substantivo pó presente no período anterior.
Em "[...] Mas no-la escreve na testa com a cinza [...]", o pronome destacado tem como referente o sintagma a sentença.
Em "outras vezes, e por vários modos, neste mesmo A Quarta-Feira de Cinzas é entendida pela Igreja dia [...]", os pronomes destacados referem o espaço enunciativo do enunciatário.
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