Português - CONSULPAM 2025 - Agente de trânsito
TEXTO
Aldeia de Barra Velha, 15 de janeiro de 2007.
Querido Xauã,
Há três dias estou em Barra Velha com Anari, Arissana e Kamaruté. Ontem passei o dia na Escola indígena daqui, às voltas com as questões dos professores Pataxós e pensando em como foi rápido nosso primeiro encontro em Itabuna. Aqui, Xauã, os professores ensinam o Patxôhã às crianças. Sei que você conhece por demais o projeto dos seus parentes do Extremo Sul. Eu sei. Talvez, Xauã, o que você não saiba é que estar aqui reativou em mim a lembrança da pergunta que você me fez lá em Itabuna, a primeira vez que fui lecionar em área indígena para professores indígenas, a primeira vez que estive em corpo com "os índios", que sabia só em papel. Resolvi então responder à pergunta que me silenciou nos últimos dois anos sem contato com o povo Tupinambá. Resposta tardia, também sei! Resposta que de nada ajudará vocês nas lutas pelas tantas 'retomadas' necessárias à 'sobrevida' da comunidade. A vontade de resposta é só minha, querido, e, por isso, diz somente do lugar que pretendo ativar para falar com você. A resposta é não: eu não falo Tupi. (...) Nunca pensei que vocês esperavam para o módulo de Linguagens e Artes um professor de Tupi. Aliás, nem sabia que vocês estavam retomando o Tupi nas aulas de Cultura Indígena nas aldeias. Para ser bem honesta, Xauã, eu nem sabia de vocês! Naqueles tempos, eu tinha acabado de entrar no mestrado em Letras, na UFBA, para estudar as imagens do Brasil em textos de ficção científica escritos por brasileiros. (...) Quando fui à Itabuna, a convite da Professora América César, eu fui buscar o 'índio do papel', o índio da ficção científica, o índio que no texto tinha o corpo de um ciborgue. (...) Daí a minha resposta, em forma de pergunta sem trégua, para vocês: "mas em que língua mesmo você vive?" Lembro que tentei convencê-los sobre 'ser índio em português', num sentido bem diferente do que foi posto em circulação pelo texto da Terezinha Maher (1998). Você não gostou, eu sei. Você me queria ali como hoje estou com os Pataxós: em parceria, em agenciamentos políticos, (nas tramas da escrita da carta que acabamos de fazer para o Governador Jacques Wagner, em nome da educação diferenciada para os povos indígenas da Bahia. (...)Vi com os Pataxó, não só daqui de Barra Velha, mas também lá de Coroa vermelha e do Kaí, a vontade de poder pela retomada da língua para escrever. ler. narrativizar e memorar suas histórias. (...) Retomo essa conversa nossa, que nem sei se em você reverbera tanto quanto em mim, por conta da fala de Awoi, por conta do encontro com o Povo Pataxó, por conta da carta que escrevemos para o então Governador da Bahia e por conta das minhas limitações de fala, no dia em que minhas formas de ler foram postas em xeque por você. (...) (Costa, 2012, p. 181).
Disponível em: https://cartasindigenasaobrasil.com.br/ensaio- que-aiada-podem-as-cartas/.
Conforme mencionado no texto, qual é o sentido figurado da expressão "índio do papel”? Assinale CORRETAMENTE.
Um indígena envolvido com atividades artísticas e políticas.
Um indígena que, atuante enquanto pesquisador e objeto de estudo simultaneamente, faz parte de um projeto acadêmico
Um indígena cuja vida e representação são bem documentadas e condizem com a realidade.
Um indígena cuja representação em livros e documentos não condiz com a realidade vivida.
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