Conhecimentos Específicos: Letras - CONSULPAM 2024 - Professor de Letras
TEXTO I
Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço dificil como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há individuos parados. Tento saber o que eles têm por dentro. Quando se trata de bípedes, nem por isso, embora certos bípedes sejam ocos; mas estudar o interior duma cachorra é realmente uma dificuldade quase tão grande como sondar o espírito dum literato alagoano. Referindo-me a animais de dois pés, jogo com as mãos deles, com os ouvidos, com os olhos. Agora é diferente. O mundo exterior revela-se a minha Baleia por intermédio do olfato, e eu sou um bicho de péssimo faro.
(Ramos, Graciliano, Cartas, Rio de Janeiro: Record, 1980. p.194-5).
TEXTO II
A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso. Fabiano imaginava que ela estivesse com um principio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. (...) Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. (...) Pobre Baleia. Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia. [...] E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro. entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de rosna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. [...] O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido. Esqueceu-os e de novo veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão.
(Ramos, Graciliano. Vidas secas, 82a ed. Rio de Janeiro: Record. 2001.Cap. Baleia, p. 85-91).
A partir da leitura do texto II, e considerando as relações de causa e efeito presentes na narrativa, assinale a alternativa CORRETA.
A inanição de Baleia é efeito da hidrofobia, doença beber alimentar e se que a impede de adequadamente.
A tentativa de Fabiano de matar Baleia é motivada exclusivamente pela crença de que ela está doente e raivosa, representando um perigo para a família.
O instinto de Baleia pelos preás, mesmo em seu estado debilitado, revela a força de seus desejos e a persistência de suas memórias, mesmo diante da morte iminente.
A fuga desesperada de Baleia é causada apenas pelo instinto de sobrevivência, sem qualquer conexão com suas memórias ou afetos em relação ao espaço familiar.
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